VILA DO ROSMANINHAL

 

IDANHA-A-NOVA

 

 

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ROSMANINHAL

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AULA ARQUEOLÓGICA

DO ROSMANINHAL

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OUTRAS ACTIVIDADES

 

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DIALECTOLOGIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AGRICULTURA

 

USO DO SOLO

A área do Rosmaninhal possui algumas manchas de solos da classe B e C, que se situam perto dos aglomerados populacionais ou Arraiais e onde é geralmente praticada a policultura intensiva.

No entanto a área é caracterizada por possuir solos de fraca capacidade de uso (classe D e E) onde se pratica uma policultura semi-intensiva, dominada pela cultura cerealífera de sequeiro extreme (pousio em sistema de afolhamento) ou associada ao olival e uma vasta área de utilização extensiva, formando a matriz de paisagem, com montados, terrenos incultos de pastoreio e culturas arvenses.

 

EVOLUÇÃO DO USO DA TERRA AO LONGO DOS TEMPOS

Nos princípios da Nacionalidade os terrenos encontravam-se na sua maioria quase totalmente incultos, sendo portanto necessário roça-los. Tarefa bastante árdua e difícil tanto mais que mão-de-obra também não abundava. De recordar o empenho dos nossos primeiros reis para povoar e desbravar este matos para serem cultivados.

Não temos conhecimento de que o Rosmaninhal tivesse sido Couto do Reino, onde se podiam refugiar alguns homiziados que nestes locais gozavam de liberdade em troca do trabalho.

Segura foi Couto do Reino por carta de couto dada por D. João I, em 24 de Fevereiro de 1421. É pois muito possível que o Rosmaninhal também tivesse gozado de idêntico privilégio, tanto mais que o topónimo Couto existe no Rosmaninhal: Couto de Sta. Marina, Couto dos Mouros.

Aos poucos as áreas de terreno para cultivo lá foram aumentando. No princípio do século ainda se roçava o mato e se faziam grandes queimadas. O mato era cortado em Fevereiro e em Agosto depois de se recolher o pão; a zona era aceirada ou isolada e fazia-se a queimada. A estas zonas queimadas chamavam-se bouchas.28 Para que os terrenos se recuperassem, as culturas eram feitas por afolhamentos.

Normalmente o terreno era dividido em três folhas e só era cultivada uma em cada ano, ficando as outras em repouso, às quais se dava o nome de restolho, relva e alqueive.

O uso de adubos era só praticado pelos mais remediados enquanto que o estrume produzido pelos animais era utilizado nos chãos com árvores de fruto ou hortas.

Regime antigo, exploração regular do solo apenas em redor dos aglomerados populacionais.

Importa aqui referir os aglomerados populacionais de Alares, Cubeira e Cegonhas Velhas, tanto mais que eles tiveram a sua origem na procura de terrenos férteis por colonos vindos de Monforte da Beira e Malpica do Tejo.

Esta exploração era feita intensivamente em pequenas propriedades particulares. No entanto havia ainda uma cultura extensiva de sequeiro feita por servidão colectiva em vastas zonas maninhas de pastoreio livre e culturas esporádicas. Economia baseada no pastoreio de ovelhas e cabras, nomeadamente o transumante.

A partir de finais do séc. XIX, assiste-se à expansão da cultura cerealífera (em especial o trigo) e da oliveira, ocupando terrenos de montado e incultos. Desaparecimento de formas de propriedade imperfeita

No Rosmaninhal o termo Bouchal ou Boucha também significa propriedade já com alguma dimensão, para cima dos sete hectares. Sendo portanto maior que a Sorte e menor que o Monte e o Couto. e correspondentes servidões, desaparecimento das formas comunitárias de repartição das terras de cultivo e do pastoreio colectivo e livre, diminuição do pastoreio transumante, repartição dos baldios e substituição dos afolhamentos por arrendamentos de curto prazo, diminuição dos terrenos incultos a uma área mínima, confinada às vertentes dos vales encaixados e cumes de afloramentos rochosos.

Economia baseada na cultura cerealífera, no pastoreio de ovelhas e cabras, criação de porcos de montado e na produção de azeite.

O desenvolvimento da grande propriedade, durante o séc. XIX, acaba com o direito comunitário. Gradualmente suprimem-se os direitos da livre pastagem, arrematam-se em hasta pública os domínios outrora pertencentes às Ordens Religiosas, delimitam-se propriedades, veda-se aos camponeses o direito secular de irem buscar lenha e bolota aos montados, assim como se põem dúvidas quanto à autenticidade da constituição de certos domínios.

Reflexo disto é a proliferação de títulos nobiliárquicos de origem recente: Visconde de Morão, Conde de Penha Garcia, etc..

É ainda por esta época, no âmbito da reforma administrativa de 1855, que se assiste à extinção dos concelhos de Segura, Penha Garcia, Zebreira e Rosmaninhal, sendo estes integrados em Idanha-a-Nova.

Juntamente com a afirmação desta nova classe de proprietários, dá-se nos camponeses o desejo de possuir terra própria, que os leva a partir de 1872, a requerer a distribuição das terras maninhas. O que vem a acontecer por decreto publicado nesse mesmo ano.

Os terrenos comunitários são distribuídos em partes iguais pela população, desde que tal seja requerido pela maioria dos chefes de família.

Porém este desejo é bom por pouco tempo; o não pagamento do foro devido pela posse da terra origina que os mesmos sejam arrematados em hasta pública ficando estas terras concentradas num grupo restrito de proprietários.

A evolução do regime de propriedade foi diversa, em muitos casos era forma corrente a obtenção da terra por um grupo de rendeiros ou foreiros, ao proprietário respectivo. No entanto o que prevalece a partir desta altura é a posse da terra eminentemente individualizada e de um grupo restrito o que origina um fosso que vai separar este grupo de proprietários dos assalariados.

Os Lavradores eram a camada social dominante, os Ganhões constituíam a maioria da população e viviam em condições bastante difíceis, devido aos baixos salários e ao desemprego.

A vida laboral desta época cingia-se apenas ao trabalho rural. A cultura do trigo liga-se decisivamente a este período.

O período do ano em que se empregavam mais pessoas era durante as colheitas.

A ceifa estendia-se de Maio a Julho. Primeiro era ceifado o centeio e a cevada, e depois o trigo. Este trabalho muitas vezes prolongava-se até mais tarde com a incursão de gentes pela Terra Fria (Concelho do Sabugal), onde o trigo amadurecia mais tarde.

As ceifas permitiam aos ganhões a regularização de dívidas, mas a miséria era tão grande que em alguns casos o que ganhavam não chegava para a sua regularização.

De Outubro a Dezembro as sementeiras eram outra altura de grande oferta de trabalho, embora desta vez restrito aos homens e rapazes.

Havia três categorias de trabalhadores; homens, rapazes e mulheres e eram pagos de maneira diferente.

Depois da sementeira o trabalho escasseava, a azeitona empregava rapazes e mulheres e também alguns homens, mas raramente ultrapassava o mês de Janeiro e só em Março a monda empregava algumas mulheres.

Entre Janeiro e Maio era o período em que havia menos trabalho e este era compensado com o contrabando, que se desenvolveu com a crise social e política espanhola, nos anos de 1930 e 1940.

Muito embora as populações se mantivessem mais ou menos ocupadas, a fome terá mesmo existido de forma extensa nesta altura.

No Rosmaninhal a crise de emprego manifestou-se intensamente, talvez por ser uma povoação muito populosa na altura (cerca de 3000 pessoas). Entre 1915 e 1935 a Junta de Freguesia de Rosmaninhal decidiu abrir intensas obras de calcetamento de ruas e caminhos, numa forma de atenuar o desemprego.

Não é por acaso que a questão entre o povo do Rosmaninhal e os povos dos Montes rebenta nesta altura. O Povo vivia no limiar da pobreza, as famílias eram numerosas e mais terrenos de cultivo vinham a calhar.

Conhecedores da situação a família Morão aproveitou e incentivou os chefes de família do Rosmaninhal a comprarem os ditos terrenos que tantos problemas vêm trazer a todos os intervenientes.

Nestas alturas surgiam algumas formas de intervenção reivindicativa por parte dos ganhões. Em 1915, a sessão de uma Junta de Freguesia chega a ser interrompida por uma “delegação de trabalhadores rurais desta freguesia que vieram pedir à Junta de Freguesia que intercedesse junto das autoridades para que se pusesse fim ao desemprego que põe em difícil situação tantas famílias desta freguesia”.

A Junta chega a temer formas mais conflituosas. A atestar estes receios estão as várias referências à acção da Guarda.

“...a concessão do posto da GNR, tão necessária nesta freguesia por causa da questão dos Montes, mas também por causa do desemprego de alguns rurais, que em aperto de necessidade poderão desmandar-se e provocar a alteração da ordem pública...”

Actas da Junta de Freguesia do Rosmaninhal, Dezembro de 1931

Os guardas são vistos pela comunidade, a par dos feitores e manajeiros, como elementos que facilitam os ricos e castigam os pobres, actuando por vezes com excesso de zelo.

O desemprego, juntamente com os baixos salários, colocava os ganhões no limiar da subsistência fazendo com que os lavradores tivessem o domínio de toda a vida social da região.

Quando alguns ganhões iam pedir aumento ao feitor, normalmente eram despedidos. Existia quase sempre uma relação de revolta que muitas vezes se traduzia em pequenos furtos e fogo posto, expressões de descontentamento espontâneo.

A partir dos anos 50/60 há um retrocesso da cultura cerealífera com o abandono do campo, passando os terrenos a incultos. O decréscimo das culturas cerealíferas devido ao esgotamento das terras, e a oferta de trabalho em Lisboa e em França, entre outros locais, provocaram um decréscimo caótico da população. Passando de cerca dos 4.000 habitantes, nos finais dos anos 50, para cerca de 1.000 habitantes nos anos 1970.

Verifica-se a redução dos efectivos pecuários com o desaparecimento do porco de montado.

A partir de 1970, expansão da cultura do eucalipto principalmente nas zonas planálticas sobranceiras aos principais Vales (Erges, Tejo e Aravil).

A partir de 1990, tendência para o abandono da cultura do eucalipto, ou pelo menos ausência de novos investimentos. Proliferação de zonas de regime cinegético especial (associativo ou turístico).

 

SISTEMAS DE CULTURAS

No Rosmaninhal hoje já pouco se cultiva e este pouco serve quase exclusivamente para pastos e ração para os animais.

No entanto ainda não há muitos anos se faziam grandes culturas, raro era o pedaço de terra que ficava inculto. Até aos anos 60 do Século passado praticamente toda a população da freguesia, como já referi anteriormente, estava ligada ao amanho da terra.

Os trabalhos da sementeira, os grandes grupos de ceifeiros, a azáfama junto das eiras e das ruidosas debulhadoras, os pastores com os seus rebanhos, os carros de bois ou de parelhas de machos, os ranchos de apanha de azeitona mostravam tal vigor de ocupação, “Um mundo cheio” que certamente nunca mais se voltará a conhecer.

Na nossa região a cultura de trigo era a que merecia mais atenção.

O trigo necessita de bons terrenos, não muito húmidos, preferencialmente planos ou ondulados e apesar de todos os cuidados é indispensável que as chuvas de Abril não faltem, requerendo as seguintes operações agrícolas:

O Alqueive ou decrua é a primeira lavoura e prolonga-se de Dezembro a fins de Março, tendo por fim o arejamento da terra, enterrar as ervas e o estrume das terras.

O atalhar ou atravessar inicia-se no mês de Março e vai até fins de Maio, e consiste em lavrar no sentido contrário do da decrua. Esta segunda lavoura prepara o campo para o cultivo do milho, grão de bico e feijão pequeno.

O Gradear é feito no mês de Setembro, utilizando-se uma grade de madeira com dentes de madeira ou ferro e é feito no sentido da primeira lavoura.

A grade é feita de cinco paus, toscamente aparelhados, com dentes de madeira ou ferro, que encaixam nas cabeceiras e é puxado por um cambão.

Os animais de tiro empregues na lavoura são constituídos por gado bovino, muar e asinino.

Pelos fins de Agosto ou começo de Setembro nos terrenos onde é feita a folha (terreno que se vai cultivar) arrancam-se os cardos e as moitas que são queimadas no local.

O dia 29 de Setembro, dia de S. Miguel, dá inicio à sementeira.

Os terrenos são primeiramente avelguiados no sentido da primeira lavoura (fazer regos distanciados de 4 a 6 metros, chamados velgas).

Servem estes regos para orientar o semeador, pois é entre eles que espalha a semente.

Depois deste serviço feito começa a última lavoura para cobrir a semente.

Hoje em dia, à semelhança de outras tarefas, os tractores agrícolas com enormes grades de discos, fazem de uma só vez vários regos e semeiam ao mesmo tempo, o que simplifica em muito todos estes trabalhos.

No entanto, na altura a que nos reportamos, este trabalho era feito pelo arado de pau, de relha de ferro.

O arado de pau era feito de madeira de azinho ou pinho. A madeira sofria um tratamento para ficar mais resistente. Depois de serrada era colocada dentro de água durante dois ou três anos.

Este arado era composto pelas seguintes partes:

manzeira - rabiça - aivecas - mexilho - relha - teiró - tamão - chavelha

No Rosmaninhal os arados utilizado na sementeira era o arado de pau. No entanto, no alqueive, utilizava-se o arado de ferro (charrua ou alavanca) em terrenos de areia e o morguenho em terreno de barro.

Também aparecia um arado de madeira mas semelhante à charrua, chamado charrueco.

O arrascalhe consiste em fazer passar por cima da seara uma grade de madeira, sem dentes, revestida de carrascos, puxada por animais.

A sacha e a monda são trabalhos normalmente realizados por grupo de mulheres, utilizando-se no primeiro um sacho para arrancar as ervas daninhas enquanto que no segundo se utiliza as mãos. Esta tarefa é realizada entre o mês de Março e o de Maio.

Nos fins de Maio começa-se a cortar os fenos a cevada o centeio e por fim, no mês de Junho, começa-se a ceifar o trigo.

A ceifa reunia grande número de gente que era chamada pelo som do búzio.

As pessoas estavam munidas de foice, conjunto de dedeiras e manguito e claro está protecção para o sol.

É costume dizer-se no Rosmaninhal, que: “o que tapa o frio, tapa o calor”.

O ceifeiro corta a seara com a foice bem serrilhada, formando gavelas (máximo de espigas que pode apertar com a mão que está livre).

Com cinco gavelas forma paveias, que são atadas em molhos que por sua vez são reunidos em rolheiros.

A seguir à ceifa era preciso acarrejar o pão, isto é transportar o pão para a eira para ser debulhado. Muitos Arraiais e Montes possuíam as próprias eiras e maquinaria própria para o seu serviço. Mas muito cereal era transportado para a Devesa Pública onde então surgiam dezenas de eiras, aí era debulhado o cereal tanto por processo manual ou com a ajuda dos animais que pisavam ou trilhavam, com ajuda de trilhos, o cereal até soltar o tão desejado grão.

A debulha era feita pelo pisar do gado a mongal e a trilho.

Os trilhos, de prancha ou de rodízio (espanhóis), muitas vezes carregavam um homem em cima que, com o seu peso, ajudava a cortar melhor a palha e eram puxadas com o cambão pelos animais. (O Cambão, feito com um pau comprido e forte, era utilizado em muitas tarefas agrícolas).

As Debulhadoras requeriam um grande número de pessoas: introduzir o cereal, ensacar o grão, retirar a palha e “acarretá-la” e guardar o trigo nos celeiros e tulhas.

Para retirar a palha, debaixo da debulhadora usava-se uma parelha de animais que puxava um cambão atravessado, que se metia por baixo do tapete da debulhadora e arrastava-se a palha com auxilio do corpo do manuseador da parelha que ia montado em cima do pau de pernas abertas, para oferecer o corpo à palha e melhor a arrastar.

As debulhadoras percorriam as eiras pois eram raros os proprietários que possuíam debulhadoras, por serem máquinas caras, muitas vezes eram de empresários “de fora” (outras localidades).

As primeiras debulhadoras eram accionadas a vapor (Locomóveis ou Caminheiras).

Mais tarde vieram as debulhadoras accionadas pelos tractores através de uma enorme correia aplicada à tomada de força do tractor.

O centeio era malhado com o mongal (mangual). A palha mais grossa era retirada para fazer baraços para atar os fenos, a palha mais fina servia para encher as enxergas.

Os fenos eram cortados pelas gadanhas (usada normalmente por homens, uma vez que se tratavam de instrumentos pesados). A este instrumento ligam-se a corna que contém a pedra de afiar.

Normalmente a ceifa e a debulha faziam-se ao quinhão, ganhando os ceifeiros, um quinto do que se colhia, depois do lavrador ter recolhido e medido a semente que semeara.

Eram por isso chamados os quintos e os quinteiros.

O jornal e a empreitada era usual nos contratos que faziam os “ratinhos”, beirões que se deslocavam ao Alentejo para a ceifa.

No entanto no Rosmaninhal (1930 - 1960) era ainda praticado outro tipo de contrato em que o casal se comprometia de fazer todo a sementeira até ser metida a palha nos palheiros do patrão em troca de um moio de trigo.

No entanto estes tempos eram tão difíceis que os trabalhadores com dificuldades pediam aos patrões para lhe irem abonando algum trigo para fabricarem o pão para comerem. No fim da sementeira muitos trabalhadores ainda ficavam em dívida para com os patrões, tempo ingrato este!...

Durante as sementeiras os trabalhadores vinham no Domingo ao povo, para descansar, divertir e tratar da sua vida. Na Segunda Feira o tocar do búzio servia para reunir os ganhões para regressarem para as sementeiras. Depois de reunidos lá partiam para o seu trabalho com o serrão às costas .

Havia nesta altura das ceifas muita gente que se deslocavam para a nossa região para aqui trabalharem na ceifa, as estas gentes chamavam os “Sartainhos”.

No final da sementeira os patrões serviam um jantar aos empregados chamado magusto onde serviam arroz com lebre, grão com enchido, castanhas cozidas, etc.

Ajuda imprescindível nos trabalhos agrícolas era sem dúvida o carro de “bois” ou de “parelha”.

O carro de “bois” era um carro muito robusto, de rodas mais pequenas que o de “parelha” e não possuía taipais nem portas como este.

Possuía fogueiros e tal como o de parelha era equipado de tiro, chavelhão e moço ou espera. Os carros de “parelha” eram ainda equipados com um sistema de travão.

Para que os animais pudessem puxar os carros, arados, grades, etc. eram unidos através de cangas.

Para unir as “parelhas” usava-se a canga de ferro e às vezes de “pau”, equipados com cangalhas e tamoeiro.

Para unir as vacas usava-se a canga de pau também equipada de cangalhas e tamoeiro, no entanto esta apresenta de ambos os lados uns encaixes que servem para segurar as piaças que vão engatar nos cornos.

Por baixo do pescoço, ligado às cangalhas, é passado a brocha, - correia em pele de cabra ou porco – torcida com um nó ao meio para evitar que a mesma se destroça.

Para as vacas existia ainda outra canga chamada o “jugo”. Esta só possuía piaças, não tinha cangalhas.

As cangas eram mais estreitas ou mais largas dependendo do uso no carro ou noutros serviços agrícolas.

 

PASTOREIO

 

“Vida de pastor, vida de mandrião”.

Ao contrário do que se diz, a vida de pastor é uma vida solitária acompanhando o seu rebanho entre a imensidão dos campos, a profundeza dos vales e as alturas dos montes. Entre o calor tropical dos verões e o frio de gelar os ossos dos Invernos é uma vida de sacrifício e não de mandrião.

Tendo sempre como companheiro um ou mais cães que o ajudam na tarefa de guardar o rebanho.

Hoje em dia a vida de pastor já se tornou menos penosa. Os pastores já usufruem de casa, onde habita com a sua família, a maior parte das vezes já tem electricidade, água, etc. Enfim, usufrui já de bastantes comodidades e facilidades desta vida moderna. O que contrasta muito com a choça feita de estacas, paredes e tecto tecido de giestas e colmo, onde tinha como móveis e utensílios dois ou três bancos, feitos de troncos de madeira (mouchos) ou de cortiça (tropeços), a cunca ou tigela onde migava as sopas, o sarrão (saco de pele de ovelha) onde transportava a merenda, e a ferraca (feita de lata ou cortiça) onde transportava a travia.

Além de ter que mudar os pesados bardos feitos de cancelas de madeira, todos os dias - tarefa bem mais fácil para os pastores de hoje, pois que as cancelas já são feitos de tubo de ferro bem mais fáceis de manejar – tinha ainda que se mudar de vez em quando, uma vez que as culturas eram feita por afolhamentos, que o pastor tinha de seguir.

Era hábito dizer-se no Rosmaninhal, quando de repente morriam algumas ovelhas sem razão aparente, que tal facto era provocada pela baba de sapos grandes ou ouriços.

Dos Santos ao S. João é necessário dividir o rebanho em dois - O vazio e o alavão - é preciso então um outro pastor “o alavoeiro” para guardar as ovelhas que dão leite.

Em Março é o tempo da queijeira (é necessário retirar os borregos para os juntar ao vazio) sendo agora também necessário um roupeiro para fazer os queijos. Serviço que normalmente é feito pela sua esposa que nesta altura vem viver na malhada.

Cria então junto da malhada galinhas, porcos, cães, gatos, etc.

O ano pastoril vai de S. Pedro a S. Pedro, e os pastores são contratados por igual período.

Há uma quadra que traduz este contrato.

 

S. João e S. Pedro

são dois Santos mudadores,

S. João muda os casados

S. Pedro os Pastores.

 

A soldada é feita em dinheiro, géneros, regalias diversas e pagas ao mês.

Quando não tem forra a soldada é maior.

A forra é o direito de pastarem gratuitamente cinquenta ovelhas suas em conjunto com as do patrão.

Pegulhal ou povilhel é o direito de tirarem oito ou dez borregos dos do patrão, os primeiros que, aberto o bardo, saírem pelos quatro cantos.

O patrão tem o direito de escolher um canto e o pastor outro.

O pastor costuma ensaiar os mais avantajados para saírem em primeiro lugar.

Todos os anos no principio do Inverno, fugindo à neve, dos altos cumes da Serra da Estrela vinham grupos de pastores com os deus rebanhos de ovelhas negras e grandes cães de guarda procurar pastos na campina de Idanha chegando também às terras do Rosmaninhal.

Eram dos concelhos de Gouveia e Manteigas e alguns do Sabugal e ficavam na raia até fins de Março.

O pastor da Serra passava o Inverno a dormir entre três caniços, alimentando-se quase exclusivamente de pão e leite.

Os rebanhos passavam as noites ao relento debaixo de fortes chuvadas em bardos feitos de rede de arame, presa a estacas de madeira espetadas no chão.

Pelo S. Pedro vinha o menajeiro fazer as arrematações dos pastores e de todo o centeio que haviam de comer. Estes contratos eram feitos com famílias com quem já tinham velhas relações.

Houve anos (anos 30 do século passado) em que desciam da Serra cerca de 10.000 a 15.000 ovelhas.

 

 

FABRICO DO QUEIJO

Todas as manhãs antes da saída para o pasto e todas as tardes no regresso, as ovelhas são retidas no aprisco (pequeno bardo) para serem ordenhadas uma a uma para dentro do picheiro.

Também este processo hoje em dia é bastante facilitado tanto pelos cais de ordenha como pelas ordenhas mecânicas.

No fim da ordenha o leite é levado ainda quente para a queijeira, onde o roupeiro côa o leite e lhe junta a água do cardo30 , pisado em gral de madeira que está há uma hora em maceração e há-de produzir a coagulação, para dentro do pote ou açucareiro.

A mistura é agora bem batida coma a fataca e passado aproximadamente meia hora é despejada, pouco a pouco, para dentro dos cinchos, sobre a francela.

Enquanto afataca o leite o roupeiro diz:

“Deus te acrescente e as almas do céu para sempre”

ou

“Deus te acrescente, quem te fizer mal que arrebente”.

 

Dentro dos cinchos o roupeiro vai calcando sempre a massa até tirar o soro. Formado e bem espremido, o queijo fica a escorrer até ao ordenho seguinte.

Resta salgar o queijo, para que se conserve e não tome bichos e para isso o roupeiro mói muito bem pequena porção de sal que lhe espalha numa e noutra face.

30 - Hoje já não se utiliza o cardo, mais sim coalho comprado em casas da especialidade.

Transporta-o agora para a tábua, onde fica em cura ou em tratamento até ao S. Pedro, data em que as queijeiras são levantadas.

Do soro fervido conjuntamente com algum leite, faz requeijão ou travia.

 

Picheiro - Recipiente para onde ordenha o leite.

Fataca - Vara com uma rodela de cortiça que serve para bater o leite.

Gral de madeira - Pequeno recipiente onde se pisa o cardo.

Cinchos - Moldes de lata com pequenos orifícios e um gancho que serve para apertar o queijo à medida que o soro se vai escoando.

Francela - mesa de madeira, inclinada e cavada onde se faz o queijo pela compressão da coalhada dentro do cincho.

 

OUTRAS ACTIVIDADES

Certos costumes e actividades hoje existentes chegaram até nós arrastando-se no tempo desde há centenas de anos.

Como podemos verificar nem sempre é fácil situarmos no tempo o que queremos transmitir no entanto, quando tratamos estes assuntos, temos tido o cuidado de pontualmente referirmos a época em estudo.

Depois de registarmos ao longo deste capítulo as actividades produtivas mais expressivas do Rosmaninhal, não poderíamos deixar de falar em actividades seculares como a moagem de cereais, fabrico de pão, fabrico de cerâmica, em particular o fabrico de telha mourisca, fabrico de carvão, fabrico e reparação de utensílios agrícolas (serrações e fráguas), apicultura, pesca, caça, que foram ou são actividades de apoio ou complementares.

No entanto e porque a meio do século passado, foi o período áureo do Rosmaninhal, onde todas estas actividades atingiram o topo, a ela vamos dar maior atenção.

A título de exemplo podemos apontar algumas actividades que existiram em meados do século passado:

Correios, Escolas, Casa Paroquial, Agência de Seguros, Farmácia, Associação Desportiva, Lagar de Azeite, Café, Tabernas, Casa de Espectáculos e Recreio (Casa Hipólito – Polho), Fábricas de Cerâmica, Chocolates de João Celorico Furtado, Moagem e Refrigerantes (pirolitos) de Joaquim Marques Pinheiro e João ramos Blasco, Posto da Guarda Fiscal e Guarda Nacional Republicana, Mina de Chumbo denominada Fonte Fria pertencente a Diego Guevaro Martins com alvará de 21 de Setembro de 1943, Serração de Madeira (Balão, Tatinha, Parreira), Fráguas, Açougues, Fornos de cozer pão, Sapateiros 31 , Alfaiates, Barbeiros etc.

Os Sapateiros, Barbeiros e outros, muitas vezes tinham de se deslocar aos Arraiais onde trabalhavam para os clientes que não se podiam deslocar ao Rosmaninhal. Muitas vezes estas profissões recebiam em troca do seu trabalho géneros, pois não havia dinheiro.

 

FEIRAS E MERCADOS

No Rosmaninhal são feitas por ano duas feiras, uma dia 30 de Maio, a feira do gado e outra dia 5 de Setembro.

Não conseguimos descobrir quando se começaram a realizar estas feiras, mas no inquérito respondido pelo Padre Diogo Vaz Magro em 1757, ele respondeu negativamente quanto a feiras, portanto nesta altura ainda não existia qualquer feira.

É também feito um mercado mensal, nas primeiras quartas-feiras de cada mês.

No passado (ainda não muito distante) havia sempre uma “Achega de bois”. Os grandes lavradores alimentavam propositadamente o boi para neste dia ser o boi ganhador.

Estes bois tinham o privilégio de pastarem no meio do “pão” e das cevadas para ficarem bem fortes.

Esta luta era feita na devesa pública e o público gritava e incitava os animais.

Hoje as feiras e mercados são realizados na Devesa Pública, mas há uns anos atrás (cerca de 20 anos), não existiam os mercados mensais e as feiras eram realizadas na Rua da Escola e estendiam-se desde o largo do Espírito Santo até junto das Escolas.

Só a transação do gado se realizava na Devesa Pública em frente das Escolas.

 

AZEITONA E LAGARES

A azeitona sempre foi fonte de riqueza do povo do Rosmaninhal.

Embora não seja uma zona predominante de olival, existem na área da freguesia, em especial nos chões e tapadas junto à povoação, assim como nas encostas dos Rios Aravil, Tejo e Erges alguns olivais embora estes últimos se encontrem abandonados e alguns perdidos.

Durante o mês de Novembro procede-se à sua colheita.

A azeitona é escolhida sendo a mais sã para a talha (conserva) e a restante para produção de azeite. Os últimos lagares mecânicos a funcionar no Rosmaninhal foram o do Senhor Domingos Lobato Carriço “Tarenga” (já em ruínas) e o do Senhor Domingos Mendes S. Carvalho, este ainda em bom estado, mas sem trabalhar. O primeiro situa-se na Devesa e o segundo no Arrabalde.

Os lagares trabalhavam à maquia, uma parte da produção de azeite era retida pelo dono do lagar como forma de pagamento.

Era costume dos mais novos, irem torrar uma fatia de pão ao lagar onde o lagareiro depois de torrado molhava o pão no azeite novo. A estas torradas davam-se o nome de “tabordas” - A estas torradas noutros locais chamam-lhes “tibornas”.

Havia também quem em casa, torrasse o pão e o barrasse com toucinho, pois a manteiga era cara.

 

FORNOS DE COZER TELHA

O forno da telha situado na Devesa já existia em 1505 quando foi feito o Tombo da Ordem de Cristo e pertencia a esta Ordem, mantendo-se activo até meados do século passado.

Existe ainda outro forno idêntico no Arraial do Couto de Santa Marina.

Este é particular e encontra-se em melhor estado de conservação que o da Devesa que se encontra quase em completa ruína.

 

FRÁGUAS

Fruto da grande quantidade de animais de trabalho existentes na freguesia, (burros, bestas, cavalos e vacas), era grande o número de fráguas ou forjas existente na povoação. Nesta fráguas compostas essencialmente pelo grande fole da forja, pela bigorna e demais utensílios, eram preparadas as ferraduras para ferrar os animais.

Algumas fráguas possuíam próximo um aparelho para segurar os animais mais possantes e mais bravos chamados “tronco”.

Eram muito conhecidas as fráguas do ti Quilhó, João Cágado, Alfredo Trinta, Profírio, Garcia, João Ferreiro e Regofa, entre outros.

 

FORNOS DE COZER PÃO

Havia na povoação grandes fornos de cozer pão. Estes fornos eramaquecidos por lenha (matos) e eram privados embora cozessem para o público,recebendo em troca, a forneira, um pão grande chamada “poia”.

Eram conhecidos os fornos do ti Sala, Ginja, Serejo, Domingos Mendes, Rabuja e Balão entre outros.

Actualmente nenhum destes fornos está em funcionamento, existem no entanto alguns fornos particulares em que é feito algum pão caseiro, muito procurado e apreciado.

Existe também na devesa uma padaria, propriedade do Sr. João Lobato Sanches, onde é fabricado diariamente pão tipo caseiro, também muito apreciado.

 

 

MOAGENS

As moagens eram grandes fábricas para a época, accionadas por um potente motor que através de correias fazia rolar grandes mós. Eram as substitutas das azenhas e no Rosmaninhal laboraram as Moagens do Moura

Pinheiro (S. Pedro), onde funcionou também um matadouro de borregos, a da D. Balbina (Devesa), Hipólito Vital “Polho” (S. João) e Domingos Mendes (Espiírito Santo).

 

TABERNAS E CAFÉS

As tabernas eram o local de convívio dos homens, nem mulheres nem crianças frequentavam estes locais.

Existiram muitas tabernas e mais recentemente cafés no Rosmaninhal.

Vamos fazer uma visita às mesmas tentando vir de trás até à actualidade.

É natural que no meio de tantas escape alguma, do facto pedimos desculpa.

Toula, Papana, Vira-te à Cachopa, Gregória, João Gregório, Remõa, Café Beirão, Salvaterra, Tatinha, Garota, Chagas, Maria Pouzia, Isabel Pereira, Polho, Barroso, Camisa, Vicente, Parreira, Marissa, Diogo, Marés, Jerónimo, Chaneco, Joãozinho, Maria Carrapata, Tó Peidão, Passarinho, Paneta, Raposo, João, Laranjo, Maria Felicia e Barata.

 

LOJAS

Também existiram em grande número, lojas onde se podia comprar os mais variados produtos.

Afonso, Féles Louro, Alfredo Garcia, Joaquim Girão, Raul, Aleixo Lobato, Chaneco, Emilia, Catrina, Vicente, Polha, Borregas, Maria Felicia, Domingos Salgueiro, Barata, Pascoal, João.

 

 

CICLO DO DESCANSO E ESPIRITUAL

Assim como em quase todo o lado, o Rosmaninhal vai perdendo as suas antigas tradições.

Tradições estas que desde tempos remotos e até aos anos 60 do século passado faziam parte da vida diária das pessoas e que bastaram duas ou três décadas para se perderem, se não na totalidade, quase. Não porque as pessoas tivessem perdido a fé ou vontade para as realizar, mas sim porque a terra se desnuda de gente, a vida tornou-se mais preenchida, as pessoas concentram-se nas grandes cidades e aí são obrigadas a trabalhar e dormir, pouco mais tempo restando.

São pois esses costumes que vamos tentar descrever neste capítulo deixando no entanto para o capítulo sete “Outros costumes “, muitos outros sem data fixa.

Não desenvolvemos muito os temas e tentam-se calendarizar, iniciando pelo dia dos Santos (1 de Novembro). Porquê este dia?

O Ciclo laboral no Rosmaninhal, como é descrito em capítulo próprio desenvolvia-se em torno das sementeiras, da ceifa e da recolha do pão, a par da criação de gado, principalmente o ovino e caprino. Todo este ciclo terminava por meados de Julho, altura em que o pão dava entrada nas tulhas.

Desde meados de Julho até se iniciarem as sementeiras em finais de Setembro existe um período de descanso quase obrigatório, pois o intenso calor da nossa região a isso obriga. Período este que é acompanhado por uma isenção de festividades, apenas interrompido pelas festas de Verão no mês de Agosto, e estas só existem desde há poucos anos, a sua origem prende-se com o fenómeno da emigração.

Assim, o dia dos Santos quebra este interregno e dá início a um novo ciclo da vida social, religioso e laboral no Rosmaninhal.

Ao longo dos séculos o Rosmaninhal construiu e desenvolveu toda uma tradição religiosa, bem patenteada quer pela prática que ainda hoje mantém quer pelo imenso património religioso que guarda.

Tendo como padroeira a Nossa Senhora da Conceição a paróquia do Rosmaninhal foi uma vigararia da Ordem de Cristo de apresentação régia pelo tribunal da mesa da consciência e teve Cura Coadjutor apresentado pelo Vigário.

A Vigararia esteve subordinada ao Bispado de Idanha-a-Velha, a Egitânea dos antigos, e ao Arciprestado de Monsanto, passando a depender da Guarda logo que a Sede do Bispado transitou para aquela Cidade a pedido de D. Sancho II (1223 a 1248) por virtude da decadência de Idanha-a-Velha. Até 1791 continuou a pertencer ao Bispado da Guarda.

Aparece depois até 1882 pertencendo ao Bispado de Castelo Branco equando este foi extinto, em 4 de Setembro de 1882, por sentença do Cardeal-Bispo do Porto passou a fazer parte do Bispado de Portalegre, a cuja diocese pertence actualmente. (Arciprestado de Idanha-a-Nova).

 

DIA DOS SANTOS

(01-Novembro)

Dia dos Santos é o dia de todos os Santos.

É também o dia das passas de figo, da aguardente e da jeropiga.

Neste dia os afilhados chegam-se aos padrinhos para recolherem o santóro, assim como os netos aos avós.

O santóro tradicional era um pão fino de farinha de trigo com formato de ferradura anelada.

Neste dia também os patrões davam o santóro aos seus criados, que consistia em passas, aguardente, etc., e ainda um pão caseiro (grande).

Havia uma certa rivalidade em ver qual o patrão que dava o pão maior aos seus empregados.

Dia de Finados faz-se a visita ao cemitério para se recordar os que já nos deixaram. Compõem-se as sepulturas enfeitando-as com flores e velas.

 

O NATAL

(24 e 25 - Dezembro)

Os festejos de Natal começam-se na noite da consoada com o jantar, normalmente couves com bacalhau.

É por tradição um motivo de reunião familiar.

Seguidamente junto ao lume são preparadas as filhós (filhoses). Os mais pequenos eram mimados com pequenas filhós de formas diversas.

Os mais novos e os menos friorentos reúnem-se em volta dos madeiros que se acendem no adro da igreja Matriz e nos largos das capelas de S. Pedro, Espírito Santo e Misericórdia.

Para os madeiros trabalha-se afincadamente desde os primeiros dias do mês de Dezembro. Os grandes madeiros são carregados pelos mais velhos ( antes em carros de bois e parelhas e agora em reboques de tractores).

Os mais novos iam às pernadas de sobreiro e azinheira.

Era sempre presente a rivalidade entre os diversos bairros para ver qual apresentava o madeiro maior.

Junto ao madeiro cantam-se cânticos de Natal acompanhados ao toque da zamburra e dão-se as tradicionais cachaporradas nos madeiros

(para saltarem fagulhas e melhor atiçar os grossos troncos e raízes). Tudo isto acompanhado sempre pelo garrafão do vinho.

 

Toca lá zamburra

ela nã qué tocar

Vamos p’ra taberna

a emborrachar

 

Seguidamente, à meia-noite assiste-se à missa do galo e vai-se beijar o menino Jesus.

O presépio sempre presente na capela de Nossa Senhora dos Remédios (na igreja Matriz) é ponto de visita por todos e muito admirado pelos mais pequenos.

O dia 25 de Dezembro, dia de Natal é pois um dia de convívio, de rever familiares e amigos, sempre acompanhado do cheirinho das filhós e do ar festivo que jubila no ar.

E claro está, logo de manhã os mais pequenos correm para o sapatinho, que está junto da chaminé, para ver o que o menino Jesus lhe ofereceu.

Como é normal também esta quadra é propícia a cânticos saudando o Messias, relembram-se algumas delas:

 

Vamos ver a barca bela

Que fizeram os pastores

Nossa Senhora vai nela

Toda coberta de flores

 

Vamos ver a caravela

Que se vai deitar ao mar

Nossa Senhora vai nela

E os anjos vão a remar

 

Alegrem-se os céus e a terra

Cantemos com alegria

Já nasceu o Deus menino

Filho da Virgem Maria

 

Ó meu menino Jesus

Ó meu menino tão belo

Logo vieste nascer

Na noite do caramelo

 

Entrai pastores, entrai

Por esses portais sagrados

Vinde adorar o menino

Nestas palhinhas deitado

 

De quem são as camisinhas

Que estão na relva a corar

São do menino Jesus

Para a noite de Natal

 

Do vão nasceu a vara

Da vara nasceu a flor

Da flor nasceu Maria

De Maria o redentor

 

Xarupa, tá, tá

Xarupa tá, tá

Natal, Natal

Filhóses com vinho

Não fazem mal.

 

DIA DE ANO NOVO

(01 -JANEIRO)

No Rosmaninhal não há grandes tradições de se festejar o ano novo.

Tenho apenas conhecimento de alguns anos a esta parte se festejar a passagem do ano em grupos de amigos e alguns bailes nos salões da povoação, alguns dos quais dignos de se verem.

 

DIA DOS REIS

No Rosmaninhal existe a tradição de comer uma Romã neste dia, para trazer sorte e dinheiro.

 

O CARNAVAL

Estes festejos realizam-se desde Domingo Gordo até Quarta-feira de Cinzas.

Antigamente durante estes dias não havia rapariga que tivesse a coragem de ir à rua e tão pouco assomar-se à janela, pois se tal fizesse era imediatamente assaltada pela rapaziada que munidos de graxa, unto dos carros ou carvão estavam prontos para lhe pintarem a sua linda cara.

Durante estes dias eram organizadas contradanças que eram muito bem ensaiadas e que eram realmente muito bonitas, pena é que hoje em dia já não se organizem.

A rapaziada vestia-se de entrudo e organizava cortejos pelas ruas, o que era motivo para toda a gente vir assistir.

Os mais novos faziam seringas de canas, de bisnagas de plástico, etc. para seringarem as cachopas.

Os mais graúdos e namoradeiros, escreviam durante a noite as paredes às raparigas solteiras com frases que às vezes não eram lá muito agradáveis

e de manhã a rapariga e a mãe se não gostavam lá muito do que lhe dirigiram lá andavam a caiar as paredes. (para escrever as paredes utilizava-se uma planta que nasce no campo, tipo cogumelo, que lhe chamam merda de lobo).

Durante a noite a rapaziada divertia-se com brincadeiras de mau gosto, mas o entrudo é mesmo assim, tudo é perdoado.

Uma dessas brincadeiras consistia em atar-se um cordel ao batente de uma porta que se puxava de longe batendo-se à porta. Claro está que a pessoa que viesse abrir não encontrava ninguém e fechava a porta. Este acto era repetido várias vezes o que provocava a ira do visado e claro está a risada dos provocadores. Outra brincadeira chamada, as cacadas e era feito de diversas maneiras:

Aqueciam-se alguns gorrões que se transportavam numa lata e depois batia-se à porta do visado. Quando este abria a porta a rapaziada atirava lá para dentro os gorrões. O visado em fúria ia logo agarrar um gorrão para atirar à rapaziada que fugia com grande alarido. Claro está, o visado apanhava uma grande queimadela.

Outra das maneiras consistia em transportar para a casa do visado, introduzindo-se pela gateira, uma lata pequena com brasas onde se punha a queimar bocadinhos de borracha, cabelos, etc. que claro está iriam provocar grande mau estar para quem se encontrava lá dentro e diz-se, até, que as pessoas começavam aos peidos!

 

QUARTA FEIRA DE CINZAS

Durante a missa alusiva a este dia o padre com o dedo transporta cinza que coloca na testa dos devotos dizendo: “Alembra-te homem que és terra e à terra hás-de voltar”.

 

O ENTERRO DA SARDINHA

Logo ao anoitecer na Quarta-Feira de Cinzas a rapaziada mais reinadia juntava-se em local combinado para dar início ao enterro da sardinha.

Este costume é pois uma farsa de um funeral em que se percorre as ruas principais da povoação num autêntico cortejo fúnebre.

O enterro é composto pelas seguintes figuras:

O Padre vestido a preceito leva dependurado por baixo das vestes e entre as pernas um chocalho que faz tocar no início e fim de cada sermão. É sem dúvida a figura mais difícil de interpretar, tanto mais que em locais já premeditados será dito um sermão que muitas vezes é pouco agradável para a pessoa à qual é dirigido. É pois um sermão crítico, uma espécie de puxão de orelhas para adultos.

O Sacristão que ajuda o padre no serviço fúnebre e transporta um balde com mijo que substitui a água benta, com a qual se benze as portas ou aqueles que não contribuem com dinheiro, pão, chouriços ou vinho.

Quatro participantes levam o caixão que é feito com umas varilhas nas quais se enfiam uns sapatos para fingir os pés do morto e se cobre com um lençol.

Os demais acompanhantes em grande gritaria, choram e acompanham o macabro cortejo.

Escusado será dizer que no final do cortejo haverá grande comezaina à custa das ofertas dos populares.

Este costume vem perdendo tradição rapidamente mas de vez em quando lá aparecem alguns mais corajosos que põem mãos à obra e lá organizam o enterro da sardinha.

 

QUARESMA

O “enterro da sardinha” e o baile da “Pinha” são por assim dizer o fim do entrudo. A partir deste dia acabam-se as brincadeiras e os bailes para darem lugar a uma quadra de penitência e sossego espiritual, assinalando assim a devoção e respeito dos Rosmaninhenses pela vida e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

São diversos os novos costumes a partir desta data até ao final da quaresma. Tentarei descrever aqueles que me parecem mais importantes.

A partir desta data os sinos são substituídos pela matraca , que acompanha todas as cerimónias religiosas.

A carne não é permitida em nenhuma mesa na quarta-feira de cinzas nem quinta e sexta-feira Santa.

Os Rosmaninhenses como fiéis e humildes cristãos são pródigos em comemorar com diversas cerimónias esta quadra. Estas cerimónias incluem diversas procissões e vários costumes religiosos.

 

ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS

Começam pelo Adro, cerca das 22 ou 23 horas e recolhem à 1 ou 2 da manhã.

As mulheres levam um xaile e os homem um gabão para se taparem no caso de algum curioso espreitar.

  • O “Baile da Pinha”, servia para marcar o fim das folias e dar início ao período da Quaresma. No meio da sala de baile era dependurada uma caixa em forma de pinha com uma Pomba branca dentro. Desta caixa ou pinha estavam dependuradas diversas fitas, mas apenas uma delas abria a porta da caixa soltando a pomba. Os pares que ao sinal puxava a fita que abria a porta era nomeado Rei e Rainha do Baile.
  • Gabão era um capote comprido com gorro, de tecido muito forte e normalmente escuro.
  • A matraca é feita de uma placa de madeira com cerca de 40 cms por 25 cms com uma pega, onde estão fixadas argolas de ferro, que batem contra a madeira, provocando um som intimidante.

No final tocam uma campainha.

A encomendação das almas começa na lª sexta-feira da Quaresma e repete-se todas as sextas feiras da Quaresma.

Ainda hoje, um grupo de homens e mulheres, costumam, percorrer alta noite, durante a quaresma os pontos mais altos da povoação, nas encruzilhadas ou em frente de capelas ou cemitério, a encomendar as almas, umas vezes cantando e outras simplesmente pedindo e rezando.

Ao que parece este é um costume muito antigo e segundo alguns autores é um dos costumes pagãos tolerado pelo cristianismo e parece ter origem nas tribos castrejas que acreditavam, que as almas dos antepassados deambulavam pelas encruzilhadas dos caminhos e junto às confluências dos rios. No Norte de Portugal e Galiza é costume corrente esta tradição da encomendação das almas.

Locais onde se faz a Encomendação das Almas:

1. Adro

2. Travessa de S. António

3. Travessa de S. Pedro

4. Pelourinho

5. Travessa do Espírito Santo (Divino)

6. Casa do Senhor Prof. Ginja

7. Capela de S. João

8. Capela de S. Roque

9. Misericórdia

10. Espírito Santo

11. Ao fundo da Rua da Santa (Devesa)

12. Capela de S. Pedro

Versos cantados durante a encomendação das almas:

Alembra-re Cristão que és terra

Alembra-te que há-des morrer

Queremos rezar as nossas contas

Do nosso bom e mau viver

Seja pelo divino amor de Deus

Seja, Seja

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

Por aqueles e aquelas

que andam sobre as águas do mar

Para que Deus Nosso Senhor

as chegue a ponto de salvar

Pai Nosso/Avé Maria (rezado)

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

ao S. António bendito

Pai Nosso/Avé Maria

Pelas benditas almas

que andam em pecado mortal

Para que Deus Nosso Senhor

as chegue a ponto de salvar

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

Ao S. Pedro bendito

para que nos abra as portas do céu

Pai Nosso/Avé Maria

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

ao encontro do Senhor

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

pela alma dos nossos pais e mães

Irmãos que estais dormindo

um sono tão profundo

Acordai e rezai

ás almas do outro mundo

(rezado)

Rosmaninhal, lembranças de um mundo cheio...

189

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

Ao Espirito Santo Divino Imperador

Amparai as nossas almas quando deste mundo for

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

Ao S. João Baptista

Que nos livre de pestes e guerras

Pai Nosso/Avé Maria

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

ao S. Roque bendito

Padre Nosso/Avé Maria

Pelas benditas almas que estão

nas penas do purgatório

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

ao Senhor da Misericórdia

Eu vos peço meus irmãos

um pai nosso e uma avé Maria

Em louvor de S. Maria Madalena

e de S. Luzia

Pai Nosso/Avé Maria (rezado)

(rezado)

 

PROCISSÃO DOS PASSOS

Esta cerimónia realiza-se pelas ruas da povoação e pretende ilustrar o caminho do Senhor desde a sua condenação até à sua crucificação e morte no Calvário. No percurso há vários locais onde existem pequenos altares (passos) onde são cantados versos alusivos a cada “passo”.

 

VIA SACRA

Realiza-se nas sextas e domingos, dentro da igreja matriz. Os fiéis vão ajoelhando e rezando em redor da igreja onde estão colocados quadros alusivos aos diferentes passos ou estações referentes à paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

 

DOMINGO DE RAMOS

A miudagem, neste dia, corre para a igreja transportando um belo e grande ramo de Alecrim enfeitado com outras flores e fitas de seda, atado na ponta de um pau ou cana para o poder mostrar bem alto e também para não serem assaltados pelos rapazes mais velhos. Também os mais adultos transportam para a igreja bonitos ramos de alecrim para serem benzidos pelo representante do Senhor. Os ramos depois de benzidos são novamente transportados para casa onde são guardados. Este Alecrim vai servir durante o ano para defumar a casa ou algum doente. É utilizado para tirar o assetente e afastar as trovoadas.

 

ENDOENÇAS

Este costume era partilhado pelas freguesias de Zebreira, Segura e Salvaterra do Extremo. Por isso só era realizada de quatro em quatro anos, para que os párocos e demais pessoas das outras freguesias poderem assistir a tão imprópria cerimónia religiosa.

Esta cerimónia, pelo seu carácter, era talvez das mais concorridas por parte dos devotos e talvez dos menos devotos e consistia no seguinte.

As pessoas assistiam à cerimónia segurando uma vela acesa, a certa altura apagavam as velas ficando em total escuridão o que simbolizava o fim da cerimónia. Era este o sinal para tão macabro procedimento por parte destes crentes, que irrompiam em grande gritaria, sapateando e batendo no chão com pedras e paus. Alguns mais atrevidos pregavam as saias das mulheres aos bancos, que ao levantarem-se rasgavam as vestes.

Claro está que a igreja proibiu tão impróprio costume já não se realizando há bastantes anos.

 

QUINTA-FEIRA SANTA

Ao anoitecer na Igreja da misericórdia é realizada a primeira cerimónia da noite. Os 12 irmãos da confraria vestidos com opas pretas, simbolizando os Apóstolos, durante o Evangelho realizam a cerimónia do Lava-pés.

Em seguida sai desta Igreja a procissão, acompanhando o Senhor Jesus Cristo (Senhor dos Passos).

Entretanto da igreja matriz sai também idêntica procissão acompanhando Nossa Senhora do Rosário.

Na Praça tem lugar o encontro do Senhor com a Nossa Senhora, depois a procissão segue para a Igreja Matriz, indo o Senhor à frente.

Já na Igreja é ouvido novo Sermão no púlpito durante o qual o sr. Padre mostra uma tela com a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. No final desta cerimónia, em procissão acompanha-se a imagem de Nosso Senhor à Capela da Misericórdia, onde fica até ao próximo ano.

A seguir à cerimónia realizava-se a consoa. Esta cerimónia já não se realiza, uma vez que esta confraria já não está activa. A Consoa era oferecida pelo Provedor da Misericórdia e consistia numa refeição à base de couves com bacalhau e nela só participavam os irmãos.

 

SEXTA FEIRA SANTA

Na noite de Sexta-feira Santa realiza-se o “Enterro do Senhor”.

Em procissão, todo o povo vestido de escuro acompanha Nosso Senhor no esquife e Nossa Senhora também vestida de luto e com o rosto tapado nesta singela cerimónia que pretende transmitir o respeito e a tristeza num percurso todo ele feito em silêncio, só interrompido pelo rezar e pelo som da matraca.

 

PÁSCOA

Depois da Quaresma e logo ao aparecimento da Aleluia (Sábado) os sinos da igreja começam a tocar substituindo a matraca, e só param de tocar dia da Santa quando a bandeira regressa à igreja Matriz.

Os rapazes revezam-se durante toda a noite e dia.

No dia de Páscoa todas as casas estão limpas e arrumadas esperando a visita do Pároco que trazia Jesus a beijar e abençoa a família (tirar o folar).

Depois dum almoço mais farto é o convívio familiar e de amigos no largo do Espírito Santo, Praça, Guarita e outros e à noite arraial e festa rija em honra de Santa Maria Madalena e Santa Luzia.

Segunda-feira realiza-se a tradicional e bonita Romaria da Santa.

No Sábado de Aleluia à noite, no fim da missa, queimava-se alecrim em frente da porta da Igreja Matriz e à meia-noite começavam a tocar os sinos.

A maneira de transmitir com a totalidade da população é sem dúvida o toque dos sinos, e para isso estão convencionados alguns toques, como por exemplo: Rebate, fogo, missa, funeral, baptizado, casamento, etc.

 

SANTA

Santa Maria Madalena e S. Luzia (protectora dos olhos).

Na Segunda-feira de Páscoa pela manhã a bandeira da Santa sai da igreja matriz acompanhada por algumas pessoas e dirigem-se a pé para a Ermida da Santa que se situa a cerca de três Quilómetros junto à estrada que se dirige para a povoação de Soalheiras, cantando velhos cânticos.

Seguidamente os Rosmaninhenses, uns a pé outros a cavalo em burros, machos ou cavalos e outros ainda em automóveis e em carrinhas, dirigem-se para a capela acompanhados das respectivas merendas.

Assistem à missa e à procissão e seguidamente espalham-se em redor da capela para comerem os seus farnéis.

Pela tarde, já na povoação realizam-se corridas de cavalos.

O Dr. Jaime Lopes Dias em ETNOGRAFIA DA BEIRA, diz-nos o seguinte:

Reunidos todos os cavaleiros, desafiam-se e correm dois a dois.

O que na primeira corrida consegue ganhar desafia o terceiro, um quarto, um quinto e assim sucessivamente até ao apuramento final.

O que ganha até ao fim fica todo o ano orgulhoso e é apontado nas feiras e festas tanto na localidade como nas redondezas.

O cavalo ou a égua vencedora são chamados, o amo ou ama.

Todos os anos uma confraria é nomeada na igreja e é composta de doze festeiras, solteiras, transporta e acompanha, na ida e no regresso da romaria, a bandeira da Santa, que fica depositada na igreja Matriz e também ainda da conservação da capela e a sua caiação nas vésperas da festividade.

S. ROQUE

Os festejos a este Santo realizam-se terça-feira a seguir à Páscoa (logo no dia a seguir ao dia da Santa).

Havia missa na capela e durante a tarde faziam-se danças e cantava-se junto da capela.

Depois da Capela de S. Domingos ter sido abandonada pelo povo do Rosmaninhal e da Zebreira, os Rosmaninhense prestavam louvor e este Santo no dia de S. Roque.

 

SANTA MARINA

Já não há lembrança de se realizarem festejos a esta Santa, no entanto os mesmos eram recordados ainda há alguns anos atrás na quarta-feira a seguir à Páscoa.

Parece que o verdadeiro nome desta Santa é Santa Marinha e não Santa Marina e ser a mesma que a igreja venera no dia 18 de Junho e conhecida pelo nome de «A Disfarçada», por haver vivido, em hábito de monge, num mosteiro de irmãos, sem ser conhecido o seu sexo até à sua morte. (Ver Monografia de Segura, de Mário Marques de Andrade).

 

S. DOMINGOS

Esta capela já não existe, no local podemos no entanto ainda ver algumas ruínas.

Situa-se já no termo de Zebreira e segundo parece foi abandonada por um mal entendido entre os populares da freguesia de Zebreira e Rosmaninhal que festejavam ambos o mesmo santo.

O Dr. Jaime Lopes Dias em ETNOGRAFIA DA BEIRA conta-nos o seguinte:

“Numa elevação entre a Zebreira e o Rosmaninhal, existiu outrora uma capela dedicada a São Domingos, advogado contra as maleitas.

A imagem pertencia ao Rosmaninhal, a capela era da Zebreira.

Todos os anos, os moradores de uma e outra freguesia acorriam em massa, em fraterno convívio, a festejá-lo na Terça Feira imediata ao

Domingo de Páscoa. E, uns e outros, faziam-se acompanhar das confrarias de Espirito Santo com as suas insígnias e bandeiras; e uns e outros, levavam como oferendas predilectas, ao Santo, telhas roubadas dos telhados dos vizinhos.

Os do Rosmaninhal chegavam primeiro, subiam até junto da capela, e ali aguardavam que os da Zebreira surgissem no Vale do lado oposto e levantassem a sua bandeira, sinal convencionado para irem ao seu encontro. Os Rosmaninheiros desciam então o monte, cumprimentavam os seus vizinhos e os juizes das suas confrarias ofereciam-se mutuamente rapé da caixa que cada um levava.

Seguiam os dois povos com suas confrarias e bandeiras a da Zebreira à frente, formavam o cortejo que marchava para a capela celebrar, com pompa, a tradicional festa.

Pela tarde, cada um dos povos tomava o caminho da sua terra.

O da Zebreira, no sitio denominado dos Vilares, estendia os seus farnéis ou merendas em derredor de uma fonte que ali existia, e por lá passava o resto do dia entre alegres cantigas e jogos de roda.

O local tomava então um aspecto bizarro de toalhas alvadias, de saias e casacos garridos e lenços multicolores.

E, porque havia pobres que não tinham farnel ou merenda, a Junta de Freguesia mandava todos os anos, aquele sitio, uma carga de vinho e duas ou três cargas de pão, para por eles serem distribuídos.

Mas um dia, ai por 1891, os povos, mal orientados desavieram-se.

Os do Rosmaninhal queriam que no cortejo a sua bandeira tivesse a primazia; os da Zebreira com fundamento na velha tradição, igualmente pugnavam por que a sua fosse à frente. E a festa por isso acabou.

E a imagem, que era do Rosmaninhal, foi levada para a igreja Matriz, e a capela, que era da Zebreira, sem patrono e sem festa, foi-se pouco a pouco desmantelando, não restando hoje mais que pobres ruínas.

Mas o povo da Zebreira não encontrava melhor alívio para as suas febres e não perdendo a sua fé em S. Domingos; trinta anos passados, construiu e consagrou-lhe uma capela no sítio do Carvão, onde realiza a sua festa anual, no Domingo imediato ao da Páscoa, e para onde continua a acarretar as telhas roubadas dos telhados dos vizinhos; para que São Domingos os livre das maleitas.

 

SENHORA DO ALMORTÃO

A Romaria da Senhora do Almortão realiza-se 15 dias após o Domingo de Páscoa e dura dois dias, sendo Segunda-feira feriado do Concelho de Idanha–a-Nova.

Toda a região do antigo reino da Egitânea é devoto a esta Santa. Os próprios Espanhóis de Alcântara, Moraleja, Zarza la Mayor comparecem em força.

Do Rosmaninhal partiam Domingo de manhã dezenas de pessoas em carros puxados por animais em burros e cavalos ou mais recentemente nos reboques dos tractores, de uma ou outra maneira todos eles iam enfeitados com flores.

Passavam a noite no recinto da Senhora do Almortão e só regressavam Segunda-feira à tarde depois de terem assistido à missa e à procissão. Era costume a rapaziada ir para a Estrada, junto ao S. Roque (Rosmaninhal) esperar os carros no regresso.

Hoje em dia as pessoas deslocam-se em automóveis, carrinhas e autocarros que vem de vários pontos do País e até de França com alguns emigrantes. De qualquer das formas, os naturais do Rosmaninhal estão presentes em força para cumprir a tradição.

 

OS MAIOS

(01-MAIO)

No Rosmaninhal há o costume, de no 1º dia do mês de Maio, se encherem fatos velhos com palha enfeitados com maias - flor de giesta – e porem-se às janelas e às portas. No entanto, este costume caiu em desuso há já alguns anos.

Este costume parece ter origem na lenda de que certo rei ouvindo dizer que tinha nascido em Belém um menino a quem o povo chamava o rei dos Judeus, mandou que degolassem na cidade, todas as crianças com menos de dois anos.

Marcaram a casa onde afinal souberam que morava o monarca de Israel - um ramo de giestas indicava aos legionários a residência do Infante.

Mas ao alvorecer a madrugada de Maio, por encanto e por milagre, em todas as casas floresciam as maias.

 

QUINTA-FEIRA DA ASCENSÃO (Dia da Espiga)

Contando cinquenta dias a seguir ao Domingo de Páscoa é o Domingo do Espírito Santo (Pentecostes) . A Quinta-feira que fica a dez dias do Pentecostes é a Quinta-feira da Ascensão.

Neste dia, grupo de rapazes e raparigas costumavam ir para o campo (Devesa), onde passavam o dia, cantando e dançando.

Os rapazes colhiam um raminho de espigas de trigo das tapadas vizinhas, que ofereciam às raparigas.

A espiga é colhida porque está nesta altura já madura e entregue à rapariga, também esta já mulher. Havendo nesta oferta uma intenção de aproximação.

A quadra seguinte deixa transparecer um pouco do que pode acontecer neste dia.

 

Quinta-feira d ´Ascensão

Se os passarinhos soubessem

Não comiam nem bebiam

Nem punham os pés no chão

 

STO. ANTÓNIO

(12 – 13 Junho)

Esta festa praticamente desapareceu, era também uma festa alegre com marchas, fogueiras e Arraiais. Hoje a única festa que se realiza com alguma afinidade a este Santo é a do grupo Os Antónios.

Desde a Páscoa até ao Domingo de Espírito Santo a Confraria do Espírito Santo - que era composta por cinco mordomos, um alferes e um tesoureiro (todos homens) – realizavam um bodo todos os Domingos.

 

S. JOÃO

(23 - 24 Junho)

Ao longo destes anos os Rosmaninhenses conviveram com uma vida amarga e de canseiras, mas nunca deixaram de ser um povo bem disposto, pronto para a folia e cumpridor das obrigações Cristãs. São várias as manifestações de carácter pagão e religioso ao longo de todo o ano.

Assim, assinalando as colheitas e marcando o início do Verão, dias 23 e 24 de Junho, festejam-se grandiosamente em honra de S. João Baptista.

São João Baptista nasceu no dia 24 de Junho e é o percursor de Nosso

Senhor Jesus Cristo. Do próprio Jesus Cristo recebeu o maior dos elogios: “De entre os nascidos de mulher, não há ninguém maior do que João”. (AAVV - Verbo-Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, vol. 16 – pág-632

O culto a São João Baptista aparece entre os mais difundidos em Roma e em toda a Cristandade. Os exércitos Cristãos dedicam-lhe Castelos e Fortalezas. (AAVV - Verbo-Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, vol. 16 – pág-633).

É, no entanto, de estranhar como é possível que um Santo tão correcto na sua conduta, tal como Santo António e São Pedro, deram origem a tanta folia.

Viveu no deserto, anunciou o Messias, baptizou multidões e acabou por morrer vítima da sua conduta. Ao criticar Heródes, por viver com a mulher de seu irmão Filipe, este rei mandou-o encarcerar e, mais tarde, embora a contra gosto, mandou-o decapitar a pedido da filha da sua amante com quem também tinha cumplicidades. (Neves, Helena – Adaptado de “Jornal Expresso” de 11.06.1999, pág. 123).

 

A FESTA

A festa de S. João coincide com o solstício de Verão, significando para as antigas civilizações o poder víril e fecundador do sol. Daí também a cumplicidade do S. João e até mesmo do Santo António e do S. Pedro com estes temas mundanos, sendo alcunhados de Santos casamenteiros e namoradeiros.

As fogueiras de S. João são, na terra, a representação das estrelas do céu. A água bebida nesta noite é ao mesmo tempo a água do baptismo, sinal da redenção instituído por S. João, como a água portadora de poderes fecundadores.

O S. João do Rosmaninhal é pois uma festa pagã, que de religioso só tem a missa seguida da procissão, e isto só há poucos anos, pois a igreja proibia que se ligasse qualquer acto religioso a esta festa.

Para ultrapassar este facto, os festeiros diziam a missa oito dias antes ou depois do dia de S. João.

O S. João tem sido ao longo dos tempos, e continua a ser, a festa que mais identifica o Rosmaninhal. É uma festa para cavaleiros, as suas figuras principais, além do Santo, são o Alferes e os dois Padrinhos.

O Alferes é o principal festeiro e assume os festejos normalmente por promessa. 43 Os dois Padrinhos são normalmente seus familiares.

O Alferes comporta todas as despesas da festa, embora receba dos naturais e forasteiros muita ajuda, quer monetária quer em géneros.

No passado as despesas com a filarmónica corriam por conta dos padrinhos.

Talvez para que não haja enganos, uma vez que o povo de Rosmaninhal é relativamente grande, é costume o Alferes, acompanhado pelos Padrinhos, ir esperar a “música" à Capela de S. Roque, na entrada da aldeia.

"Música" é o nome mais vulgar dado à Filarmónica, que por não haver no Rosmaninhal, tal como o fogueteiro, tem de ser contratado fora. Nos últimos anos já é habitual e quase familiar a presença da Banda Filarmónica da Aldeia de João Pires (Penamacor).

Seguidamente, a pé, dão uma volta ao povo tocando as músicas de S.João.

O povo, esse faz a festa rija, e para isso no dia 23 de Junho já tem preparadas as canas de favas secas, o rosmaninho e o alecrim para as fogueiras que acende ao cair da noite à passagem dos cavaleiros.

A cavalhada têm início à porta do Alferes, que se encontra enfeitada com um pinheiro de cada lado, iluminado por lâmpadas eléctricas (que substituíram as lanternas de azeite) e balões à moda do Minho.

Na varanda ou janela estendem-se colchas vermelhas e a bandeira de S. João, de seda encarnada, com a estampa do Santo.

Quando da Guerra do Ultramar era costume prometer-se fazer a festa se os filhos voltassem “bem” ou ficassem “livres à tropa”. Também é comum prometer-se por razões de saúde, nomeadamente quando familiares próximos são submetidos a operações. “Devoção à festa” é ainda outro motivo apontado para quem “agarra” o S. João.

Quando todos os cavaleiros se encontram preparados, o Alferes, com uma faixa ou banda encarnada a tiracolo, montado em cavalo branco (se o houver) dirige-se para onde se encontra a bandeira acompanhado dos Padrinhos.

A esposa entrega a bandeira ao Alferes e o cortejo põe-se em marcha pelas ruas com a “Música” à frente.

Os padrinhos, sempre um de cada lado do Alferes, seguram as borlas da bandeira que este apoia no cinturão, seguindo logo atrás todos os cavaleiros com as albardas cobertas com colchas e todos os Arreios, atafaias e cabrestos enfeitados com fitas e flores. (Adaptado de Dias, Jaime Lopes – Etnografia da Beira – Vol. VII, pág. 143, 144).

Nesta noite o rosmaninho e o alecrim queimado dão um aroma ainda mais festivo à Povoação que se encontra toda iluminada pelas fogueiras que os cavalos, bestas e burros galgam.

Não faltam quedas provocadas pelos espantos das bestas mais novas ou mais bravas (Dias, Jaime Lopes – 1948 – Etnografia da Beira, vol. VII, pág.144 e 145) quando a rapaziada lança bombas ou rabichas ás suas patas ou lhes põem tojo debaixo do rabo.

(Rabichas são rastilhos de pólvora que quando acendidos, provocam um zumbido e ziguezeiam até se extinguirem).

Tojo é uma planta muito vulgar no Rosmaninhal, cheia de pequenos picos aguçados.

Três homens, ou moços feitos, servem de estribeiros ao Alferes e Padrinhos, segurando os cavalos pela rédea, tratando destes quando os festeiros se apeiam e indicando o sentido das ruas a tomar.(Mesquita, Jorge Eduardo P. B. Lobo “Festa e Estratificação Social na Campina” 1984 – pág. 49)

Uma das passagens obrigatórias é a capela de S. João. Só depois a cavalhada regressa à casa do Alferes onde este entrega a bandeira à sua esposa (se o Alferes for solteiro entrega a bandeira à mãe ou irmã mais velha) que a estende na janela sobre a colcha.

Actualmente são distribuídos, tremoços, broas de mel,  vinho, cerveja e sumos. Antigamente era servido apenas vinho numa caldeira grande de onde os bebedores se serviam com um único copo de asa e os cavaleiros de besta grande recebiam duas broas enquanto os de besta pequena recebiam apenas uma broa.

As broas são pequenos bolos circulares feitos de farinha de trigo, azeite, ovos, açúcar e mel.

Depois de todos os cavaleiros recolherem os animais, já noite dentro, o povo dirige-se a casa do Alferes onde é servido um magnífico jantar a todos aqueles que o desejarem.

Dá-se início, de seguida, ao arraial que é feito à porta da casa do

Alferes. Sempre que o Alferes tem disponibilidades há fogo preso (queimar a ramada) e aéreo e os tremoços e o vinho são à discrição.

Muitos namoricos começam no S. João e muitos são os namorados que espreitam o momento do fogo preso, aproveitando a distracção da mãe, sempre vigilante, para trocarem uns beijos ou um ou outro gesto mais atrevido.

Findo o arraial, lá para as três ou quatro da madrugada, era hábito grupos de raparigas e rapazes dirigirem-se para a Fonte das Freiras, Fonte

Nova e de Chão Martins a beberem água, porque é costume dizer-se que os solteiros que não beberem água nesta noite, não se casam. Esta é mais uma razão para que se diga que o S. João é um Santo casamenteiro.

No dia 24, dia de S. João a festa recomeça logo ao nascer do sol com alvorada de foguetes e morteiros. Antigamente os festeiros estavam presentes no local onde se realizava a alvorada.

Seguidamente o Alferes e os padrinhos, a cavalo, com a “Música” e demais pessoas dirigem-se para a Capela de S. João, onde durante a manhã é celebrada missa em honra do Santo, seguida de procissão.

Acabada a procissão o Alferes oferece a todos um abastado almoço.

O almoço embora à disposição de toda a gente, já é uma refeição menos frequentada, tendo um carácter mais familiar.

A refeição, tal como o jantar do dia anterior, baseia-se em ensopado de ovelha, caldo do mesmo, pão, vinho e arroz doce. Para o jantar do dia da festa, refeição tão farta como a anterior, são convidadas todas as pessoas que ajudaram a realizar a festa. Antigamente realizava-se apenas um almoço no dia da festa (dia 24) e um jantar para as pessoas gradas da povoação. Só no fim do seu repasto era permitida a entrada ao demais que quisessem comer.

Hoje em dia, este hábito já não é seguido e as refeições são para todos aqueles que quiserem servir-se e tenham apetite, porque “chanfana” e vinho não faltam.

A seguir ao almoço realiza-se nova concentração de cavaleiros junto à casa do Alferes que percorrem novamente as ruas sempre com a filarmónica à frente.

No final o Alferes vai depositar a bandeira a sua casa, entregando-a sempre pela janela ou varanda a sua esposa e seguidamente dirigem-se todos para a Rua do Espírito Santo para “tirarem o galo”.

 

TIRAR O GALO”

Na rua é colocada uma corda que a atravessa de lado a lado. Ao meio da corda fica dependurada uma argola feita com junco ou verdasca de oliveira com cerca de 10 cm. de diâmetro. Os cavaleiros a galope têm de enfiar uma vara, que não pode ser muito pequena, na argola.

O primeiro a concorrer é o Alferes. Depois é a vez dos Padrinhos e dos futuros festeiros e por fim, cada um de sua vez, concorrem todos aqueles que quiserem. (este “torneio”, é orientado por “juizes” nomeados na altura).

Quando conseguem enfiar a vara na argola recebem um galo e em seguida toca a música.

Para arreliar os cavaleiros, de vez em quando, puxa-se a corda, o que os impede de enfiar a vara na argola, sendo motivo, claro está, de gargalhada para alguns e zanga para outros.

Os cortejos realizados e o acto de “tirar o galo”, em tudo se assemelham aos torneios medievais, já não falando dos modos rudes e agressivos como os homens conduzem os animais e na rivalidade para conseguirem tirar o galo.

A festa de S. João do Rosmaninhal é uma festa para “Cavaleiros” o que nos faz recordar a Ordem de Cristo, implantada em Portugal por D.

Dinis, no Séc. XIV., também chamada a Ordem da Cavalaria Portuguesa.

 

“ENTREGA DO S. JOÃO”

Findo este torneio, a cavalhada põe-se em marcha, sempre com a música à frente, em direcção à casa do Alferes para recolher a bandeira de

S. João Baptista, dirigindo-se, posteriormente, para a casa do novo Alferes para lhe entregar o S. João, simbolicamente representado pela bandeira.

Junto à casa do Alferes novo, ambos montados nos cavalos, o Alferes

Velho tira a faixa que trás a tiracolo e coloca-a ao Alferes Novo, seguidamente entrega o cinturão e a bandeira de S. João abraçando-se de seguida.

Os Padrinhos, entregam as borlas da bandeira aos Padrinhos Novos e abraçam-se também.

Para finalizar esta cerimónia, brindam todos com vinho do Porto e são distribuídos tremoços, vinho e broas que o Alferes Velho ofereceu ao

Novo para que ele por sua vez as pudesse oferecer ao povo.

As pessoas sempre bem animadas vão gritando:

“Viva o Alferes novo! Viva a festa, que o Alferes velho já não presta”.(Dias, Jaime Lopes – 1948 – Etnografia da Beira, Vol. VII, pág. 147).

Os Espanhóis que antigamente assistiam em grande número ao S. João do Rosmaninhal gritavam:

“Viva o San Juan do Rosmaninhal que dá vinho e tchoutcha (tremoços) a mim”. (Dias, Jaime Lopes – Etnografia da Beira, Vol. VII, pág. 148).

Seguidamente realiza-se uma última cavalhada mas desta vez já com o Alferes novo e seus Padrinhos à frente seguido imediatamente pelo

Alferes velho e seus Padrinhos e demais cavaleiros.

A festa termina com a entrega da bandeira pelo Alferes novo a sua esposa.

A bandeira fica depositada todo o ano na casa do Alferes e, antigamente, tomava parte nas festas que se realizavam no Rosmaninhal, levada pelo filho mais velho do Alferes, não tendo filhos era levada por um seu amigo. Se durante o ano morresse algum parente próximo do festeiro, a festa não se realizava.

A festa do Rosmaninhal, como já referimos, foi sempre muito querida dos Rosmaninhenses, todos contribuem com ofertas para os festeiros, constituídas por cabeças de gado, ovos, mel, dinheiro, etc.

Na véspera de S. João, logo ao nascer do sol começam-se a matar os animais oferecidos para os banquetes e nos bastidores começa todo um remoinho de actividade para que tudo esteja pronto, tanto em qualidade como em fartura.

O festeiro começa cerca de quinze dias antes a fazer os bolos (broas), que serão oferecidos durante os festejos e sempre que alguma pessoa vai a sua casa fazer alguma oferta para ajuda dos festejos.

De referir que esta é a única festa em que os festeiros não fazem qualquer tipo de peditório. Costume certamente herdado da época em que o S. João era feito pelos “ricos”. Pois para eles seria muito incómodo, e até humilhante, irem pedir, cabendo às pessoas a “obrigação” de fazerem a sua oferta.

 

RESUMO DAS VOLTAS

1º Volta

Dia 23 de Junho ao pôr do sol – saltar as fogueiras e participam todos os cavaleiros – Jantar para toda a gente.

2º Volta

Dia 24 de Junho pela manhã (cerca da 10 horas) – saem só os festeiros a cavalo e dirigem-se à capela de S. João, onde é celebrada missa seguida de procissão.

3º Volta

A seguir ao almoço e participam todos os cavaleiros.

No final o Alferes vai depositar a bandeira a sua casa e dirigem-se todos para a Rua do Espírito Santo para “Tirar o galo”.

4º Volta (última)

Depois de “Tirarem o galo” o Alferes, acompanhado de todos os cavaleiros, dirigem-se a sua casa recolher a bandeira e vai entregá-la ao novo Alferes (festeiro nomeado para o ano seguinte) e já com o “Alferes

Novo” à frente é realizada a última volta ao povo.

A “Banda” acompanha todas estas cavalhadas sendo o seu lugar sempre à frente do cortejo.

Quando os próximos festeiros já são conhecidos, estes tomam lugar nesta cavalhada logo a seguir ao “Alferes” e respectivos Padrinhos.

 

CANCIONEIRO DE S. JOÃO

Outra prova de afeição dos Rosmaninhenses, Rosmaninheiros ou Chamusquedos pelo S. João é o rico e numeroso cancioneiro.

As mulheres tocam adufe e cantam o S. João à porta do Alferes e também à passagem das cavalhadas.

A espécie musical pertence ao género das chamadas “cantigas de adufe”, de que a Beira Baixa mantém, por assim dizer, a especialidade. Duas mulheres entoam um simples inciso melódico em ritmo de marcha e num saboroso mixolidio de fá com omissão do 2º grau. A deformação da voz sobressaliente, aquela espécie de rouquidão, deve ser considerada uma característica de estilo e não um ricto caricatural, como se poderá pender e crer. (Giacometti, Michel e Graça, Fernando Lopes – Música Regional Portuguesa – CD-SP 4200, Vol. 3 Beiras, Strauss – Música e Vídeo, AS).

 

O S. JOÃO DO ROSMANINHAL

 

Na noite de S. João

haja alegria a fartar,

cada qual bote a cantiga

que melhor souber cantar.

 

Na noite de S. João

folga o povo a seu contento,

mocinhas morrendo estão

de arranjarem casamento.

 

Se S. João bem soubera

quando era o seu dia,

desceria do céu à terra

com prazer e alegria.

 

Bem se vê que S. João

é um santo casamenteiro,

trás um cacete na mão

e aos pés um manso cordeiro.

 

S. João já vem perto

vem chegando à ribeira,

vem dizendo aos moradores

que metam as mãos na algibeira.

 

Que cavaleiro é aquele

que vai de cavalo branco?

É o S. João Baptista

que vai correr o campo.

 

Ó meu rico S. João

ó meu santo marinheiro,

levai-me na vossa barca

para o Rio de Janeiro.

 

Ai, meu lindo S. João,

meu ramo de rosmaninhos,

dá saúde ao nosso Alferes

e também aos seus padrinhos.

 

Ó meu S. João Baptista,

quem vos deu o borreguinho?

Encontrei-o no deserto

que andava por ali sozinho.

 

Ó meu rico S. João

quem vos deu o borreguinho?

Apanhei-o no deserto

quando vinha de caminho.

 

Ó meu rico S. João

eu te peço, por quem és,

me livres da tentação

das formigas salomés.

 

Donde vindes S. João,

pela calma sem chapéu?

Venho de apagar as fogueiras

que se acenderam no céu.

 

Ó meu lindo S. João

d´onde vens tão molhadinho?

Venho de passar a ribeira

p´ra cheirar o rosmaninho.

 

S. João para ver as moças,

fez uma fonte de prata,

as moças não vão á fonte

e S. João todo se mata.

 

S. João, para ver as moças,

fez uma fonte de cortiça,

as moças não vão a ela

e S. João todo se esganiça.

 

S. João à minha porta?

Não tenho nada para lhe dar,

darei-lhe uma cadeirinha

para nela se assentar.

 

S. João à minha porta?

não tenho nada para lhe dar,

darei-lhe uma fita verde

para ele pôr no altar.

 

S. João era um bom homem

se não fora tão velhaco.

Foram três moças à fonte,

foram três e vieram quatro.

 

S. João perdeu a capa

no caminho do estudo,

ajuntaram-se as moças todas

e compraram-lhe um sobretudo

 

S. João adormeceu,

aos três dias recordou.

Recorda, S. João, recorda

que o teu dia já passou.

 

Eu hei-de ir ao rosmaninho

àquela terra de além.

Para acender as fogueiras

ao S. João que lá vem.

 

Na manhã de S. João

se vê quem tem namorado,

dá a dama ao damo

um ramalhete de cravos.

 

Menina da saia aos ramos,

se não quer ficar solteira,

dê-me a sua mão e vamos

os dois a saltar a fogueira.

 

Também no céu há fogueiras,

são as estrelas, meu amor,

mal entra o anoitecer

acende-as Nosso Senhor.

 

Sobe a fogueira tão alta

que chega à lua, Maria,

tal e qual como o luar

chega à nossa freguesia.

 

Vai buscar uma braçada

de alfazema e rosmaninho,

dá mais valor à fogueira

e fica o ar perfumadinho.

 

Alcachofras são enganos,

hei-de queimá-las aos molhos,

não ao lume da fogueira

mas ao lume dos teus olhos.

 

Menina venha pôr

o manjerico ao relento,

se não quer que o seu amor

lhe falte ao juramento.

 

No altar de S. João

há lá rosas amarelas,

S. João subiu ao céu

a pedir p´las donzelas.

 

No altar de S. João

Há lá rosas encarnadas,

S. João subiu ao céu

a pedir p´las casadas

 

No altar de S. João

nasceu uma cerejeira,

venturosa da donzela

que lhe colher a primeira.

 

Aquela relvinha verde

foi a minha perdição,

perdi lá um anel d´oiro

na manhã de S. João.

 

Na noite de S. João

fui falar ao meu derriço,

pôs-se a lua e o sol nasceu

nenhum de nós deu por isso.

 

Para o S. João que vem

hei-de morar noutra rua.

Eu ainda não tenho casa

S. João, arrende-me a sua.

 

Na fonte lavei a face,

na manhã de S. João,

assim a água me lavasse

as mágoas do meu coração.

 

Já ouço cantar os galos,

é madrugada, meu bem,

Adeus ó meu S. João,

até para o ano que vem

                                                                          Dias, Jaime Lopes - 1948, Etnografia da Beira, Vol. VII, pág.

 

OS FESTEIROS DE S. JOÃO

A informação oral diz-nos que anteriormente a 1965 “a festa era dos ricos”, frase esta bem demonstrativa de que fazia parte desta festa um cerimonial associado a um estatuto social alto, apenas ao alcance de pessoas possuidoras de elevado nível económico, que lhes permitisse assegurar as despesas da realização da festa, servindo ao mesmo tempo como ostentação da sua posição social e da sua força perante outros estratos sociais.

De todas as formas não conseguimos apurar a origem desta festa nem, tão pouco, quem ou que estrato social assumia a realização da festa num passado mais longínquo.

Assim a lista de festeiros está dividida em dois grupos onde podemos constatar que, num primeiro grupo, até ao ano de 1964, foi feita por lavradores ou comerciantes enquanto que, num segundo grupo, a festa começou a ser feita por pastores ou emigrantes. O que deixa bem presente a mudança ao nível dos estratos sociais e alguma decadência das classes até aí dominantes.

 

“O S. JOÃO DOS RICOS”

 

Ano de 1945

Alferes: Francisco Hipólito (Polho)

Padrinhos: (não apurados)

 

Ano de 1946

Alferes: Francisco Goulão

Padrinhos: António Serejo

(não apurado)

 

Ano de 1947

Alferes: João Folgado Velho (Moço)

Padrinhos: Domingos Mendes

João de Deus

 

60 -Este assunto encontra-se melhor descrito no trabalho “S. João Baptista do Rosmaninhal” do autor desta obra.

 

Ano de 1948

Alferes: António Serejo

Padrinhos: Irmão e Cunhado

Ano de 1949 Alferes: José Ramos (Peseta)

Padrinhos: João Ginja

Francisco Hipólito

 

Ano de 1950

Alferes: João Pinto (Ratoeira)

Padrinhos: (não apurados)

 

Ano de 1951

Alferes: João Seborro (Gregório)

Padrinhos: (não apurados)

 

Ano de 1952

Alferes: Domingos Mendes

Padrinhos: Domingos Carriço (Cunhado)

Manuel Serejo

 

Ano de 1953

Alferes: Manuel Serejo

Padrinhos: (não apurados)

 

Ano de 1954

Alferes: João de Deus

Padrinhos: João Folgado “Velho”

João Folgado Serejo

Observações:

A bandeira foi recolhida por Domingos Carvalho Serejo, que não realizou o S. João em 1955, nem nos anos seguintes, por luto. Morreu o padrinho, depois morreu a avó e depois a sogra.

Nestes anos intermédios em que Domingos Carvalho Serejo “guardou” a bandeira a festa realizou-se pelo menos duas vezes em que não foi possível apurar a data e uma outra vez em 1963, voltando sempre a bandeira para casa deste.

Num ano foram um conjunto de rapazes, “filhos dos ricos”, que o fizeram de improviso numa casa vaga situada na praça, propriedade do “Sr.

Zézinho Moura”.

Num outro ano foi o Sr. Casimiro, empregado do “Sr. Domingos

Mendes” que realizou a festa, entregando também este a bandeira ao “Sr.

Domingos Carvalho Serejo”.

Também nos falam de um outro festeiro de alcunha “Serraninho”, mas é tudo muito vago...

O Alferes teve sempre o cuidado de entregar a bandeira a pessoas de sua confiança notando-se bem a intenção de não deixar que a bandeira de S. João saia da classe, pois nesta altura já se começava a notar o declínio desta.

 

Ano de 1963

Alferes: João Camisão

Padrinhos: (não apurados)

 

Ano de 1964

Alferes: Domingos Carvalho Serejo

Padrinhos: João Folgado Serejo

João Maria Pinto

Neste período de dez anos, tempo decorrido entre a “entrega” do S.

João pelo “Alferes” João de Deus, em 1954, até ao ano de 1964 em que o

“Alferes” que “agarrou” o S. João, Domingos Carvalho Serejo o realizou, a festa de S. João foi realizada algumas vezes, delas fizemos o devido registo no entanto, temos consciência de que poderá, neste período, faltar algum festeiro.

Aqui termina o ciclo em que o “S. João era feito pelos ricos”, a partir desta data começa um novo ciclo de festeiros que advém de uma classe que teve que ganhar o pão fora do Rosmaninhal e por vezes fora do seu País, de uma classe que vivia à míngua debaixo do tecto dos que antes faziam a festa. Uma classe de homens que substituiu o cultivo das terras pela criação de gados e pelo trabalho nas fábricas ou na função pública, normalmente como militar.

 

“O S. JOÃO DOS POBRES”

Na Passagem do S. João de 1964 (S. João dos Ricos) para o de 1965 (S.

João dos Pobres), o “Sr. Domingos Carvalho Serejo” abraçou o “Ti João

Guerra” dando cumprimento à tradição embora o povo dissesse que isso era impossível.

O “Sr. Domingos Carvalho Serejo” talvez para tentar sossegar o “Ti

João Guerra” enviou recado para que não estivesse preocupado, pois ele entregava-lhe o S. João de bom grado.

Era ainda bem patente a questão da diferenciação das classes sociais.

A partir desta data o S. João é feito normalmente por promessa - filhos na guerra do Ultramar, doenças ou sorte para o marido ou familiares emigrados, são os principais motivos para a realização dos festejos.

 

Ano de 1965

Alferes: João Gomes Chambino“Guerra”

Padrinhos: José Mateus Crespo (cunhado)

Manuel Churro (amigo)

Observações:

“Haja quem diga que não, passou o S. João do Guerra para o Macarrão”, diz o Ti João Guerra com certo orgulho, que acrescenta “este verso foi dito pelo Patató que o ouviu ao Tacho Pinheiro”.

 

Ano de 1968

Alferes: Manuel Crespo “Macarrão”

Padrinhos: José Chambino “Tripa”

Domingos Chambino “Tripa”

 

Ano de 1969

Alferes: Albano Vaz Pinto “Lourenço”

Padrinhos: José Vaz Pinto “Zézito”

João “Espanhol”

 

Ano de 1970

 Alferes: João Seborro “Janota”

Padrinhos: Rodrigues Seborro “Janota”

Leopoldo Folgado Chambino

“Caixote”

 

Ano de 1971

Alferes: Carlos Tonelo Russo

Padrinhos: Joaquim Folgado “Carrapato”

José Flores “Pandrico”

 

Ano de 1972

Alferes: João Seborro “Fanha”

Padrinhos: João Folgado Farias“Espanhól”

Joaquim “Patató”

 

Ano de 1973

Alferes: Manuel Correia “Chairico”

Padrinhos: Filho – José Correia

Genro

 

Ano de 1974

Alferes: João António Afonso Tonelo

“Fasquinha”

Padrinhos: José Afonso Pinto Tonelo

Joaquim Afonso Pinto

 

Ano de 1975

Alferes: João Maria F. Pinto C. Branco

Padrinhos: Manuel M. Carvalho Serejo

Joaquim G. Miranda S. Peña

Observações:

Não é natural do Rosmaninhal, o sogro é um lavrador que pegou o

S. João em 1953.

Neste ano o “Alferes” convidou um primo Espanhol para Padrinho, que teve a infelicidade de deixar morrer o cavalo, que montava, numa queda.

 

Ano de 1976

Alferes: João Chambino “Fiscal”

Padrinhos: Filho – José Parreira Sanches

Filho-Manuel Parreira Sanches

 

Ano de 1977

Alferes: José Flores “Pandrico”

Padrinhos: João Martins Flores

Domingos Martins Flores

 

Ano de 1978

 Alferes: João Sobreiro “Espanhol”

Padrinhos: Joaquim dos Santos Sobreiro

“Caneco”

José dos Santos Sobreiro “Caneco”

 

Ano de 1979

Alferes: João António Caldeira Pinto

Carneiro”

Padrinhos: Domingos Caldeira Pinto

José Manuel Caldeira Pinto

 

Ano de 1980

Alferes: João C. Carreiro “Charra”

Padrinhos: Irmão -João Pinto Carreiro

Irmão –António Pinto Carreiro

 

Ano de 1981

 Alferes: António Folgado Nogueira

Padrinhos: Filho-José Carlos G. Nogueira

Genro - João Martins Galante

Observações:

Neste ano, como quase em todos, houve queixa da banda da música por terem que andar tanto e normalmente pelo calor. Houve um ano que foram num reboque de tractor, pois os músicos negaram-se a dar as voltas a pé.

 

Ano de 1982

Alferes: Joaquim Correia “Galhita”

Padrinhos: João F. Caldeira “Couvinha”

Rui Manuel Cruz Correia

 

Ano de 1983

 Alferes: José Manuel Tonelo Crespo

“Serraninho”

Padrinhos: Augusto P. Crespo“Serraninho

Manuel P. Tonelo “Fasquinha”

 

 

Ano de 1984

Alferes: Marcelino Folgado “Tarrote”

Padrinhos: Filha – Fátima Folgado Almeida

Genro – José Tonelo Louro

 

Ano de 1985

Alferes: José António Camisão Teixeira

“Cambalhotas”

Padrinhos: Carlos Alberto Camisão Mendes

Teixeira (irmão)

Carlos Alberto Valentes Fernandes

(cunhado)

 

Ano de 1986

Alferes: Domingos Correia “Minga”

Padrinhos: João Luis P. Correia (filho)

Luis António Pinheiro C. (filho)

 

Ano de 1987

Alferes: António C. Mendes “Tó Peidão”

Padrinhos: António Manuel B da Conceição

José Pascoal

 

Ano de 1988

Alferes: João Galante Vinagre

Padrinhos: João Manuel Quaresma Galante

(filho)

João António Quaresma Galante

(filho)

 

Ano de 1989

Alferes: Manuel Folgado “Bonito”

Padrinhos: João Sarafana Folgado (filho)

Manuel Celorico Romão (genro)

 

Ano de 1990

Alferes: Joaquim Quaresma “Carouca”

Padrinhos: António Manuel Farinha

Quaresma (filho)

João António Farinha Quaresma

(filho)

 

Ano de 1991

Alferes: João Carlos S. Galvão“Cagoita”

Padrinhos: António Manuel Santos Galvão

José Henriques S. Camisão

 

Ano de 1992

Alferes: João F. Caldeira “Couvinha”

Padrinhos: José António Seborro Caldeira

Domingos Filipe Seborro Caldeira

(filhos)

 

Ano de 1993

Alferes: João Manuel Folgado Farias

Padrinhos: Carlos Manuel Lavado Farias

Filipe Manuel Farias Almeida

 

Ano de 1994

Alferes: António N. Caldeira “Chaneco”

Padrinhos: Acácio Neves Coelho

Emanuela Chambino Coelho

 

Ano de 1995

Alferes: Joaquim Barata “Raposo”

Padrinhos: José Mendes Pinheiro

José Afonso (Genro)

Observações:

Este Alferes é natural de Segura, casou no Rosmaninhal.

 

Ano de 1996

Alferes: João M. Flores “Pandrico”

Padrinhos: Maria Fátima Folgado Flores

Sandra Maria Folgado Flores

(Filhas)

 

Ano de 1997

Alferes: Manuel Correia “Charra”

Padrinhos: João Pinto Carreiro “Charra”

João Manuel Correia Carreiro

“Charra” – (filhos)

 

Ano de 1998

Alferes: Possedónio Louro Chambino

Padrinhos: João Maria Folgado Louro

Chambino

José Afonso Louro Chambino

(filhos)

 

Ano de 1999

Alferes: João Malcata Apolinário

Padrinhos: João Carlos Crespo Flores

“Pandrico”

João Martinho Carreiro “Caçapo”

Motivo:

Não havia festeiros. Esta festa de S. João foi feita pelo grupo onomástico os “JOÔES”.

 

Ano de 2000

Alferes: Domingos Correia “Minga”

Padrinhos: João Luis Pinheiro Correia

Luis António Pinheiro Correia

(filhos)

Observações:

Este festeiro já realizou o S. João em 1986 e para o ano 2001, é novamente

a mesma família a realizar a festa à excepção do Alferes que parece ser o

Genro.

 

S. PEDRO

A festa de S. Pedro nem sempre se realiza, no entanto quando tal acontece consta de missa quermesse e arraial.

Neste dia é costume homens e mulheres desafiarem-se para se pesarem na enorme balança dependurada no Alpendre da Capela. O mais pesado paga a importância que os festeiros cobram para esse efeito. No entanto este costume parece-me ter um significado mais material e segundo informações dos mais velhos servia para calcular a diferença de peso entre os namorados, sendo a diferença reposta em trigo, que iria contribuir para o dote da noiva ou do noivo.

Existia ainda outro costume nestes festejos a S. Pedro, este bastante bárbaro, também comum a outras localidades, nomeadamente em Oledo.

Trata-se de enterrar um galo no chão deixando-lhe apenas a cabeça de fora.

Depois atiram-se pedras a partir de local a demarcar. Quem conseguir matar o galo, ganha-o.

Na vizinha povoação de Cegonhas existe um costume idêntico, só que ali, o concorrente fica munido de um pau com os olhos tapados. Depois de um festeiro lhe fazer dar umas voltas sobre si mesmo, fica por sua conta na tentativa de acertar no galo com o pau e matá-lo.

 

FESTA DE VERÃO

(Segundo fim de semana de Agosto)

Esta festa existe desde meados dos anos setenta no século passado e veio animar este mês em que o Rosmaninhal recebe em seus braços todos os seus filhos espalhados um pouco por todo o mundo.

A emigração causou no Rosmaninhal uma ferida demográfica que certamente nunca mais vai sarar. No entanto o Rosmaninhal aos poucos vai se recompondo e no mês de Agosto revive um pequeno sonho daquilo que em tempos foi uma realidade.

Esta festa a par do S. João é as maiores festividades da actualidade no Rosmaninhal. Normalmente dura três dias e é organizada por uma comissão que se vai auto-nomeando todos os anos. Não existe na festa de

Verão qualquer actividade religiosa.

Também a Povoação das Soalheiras faz a festa de Verão no terceiro fim de semana de Agosto e a povoação das Cegonhas no último fim de semana de Agosto.

Para estas festas muito contribui a população do Rosmaninhal que só por si enche o recinto das mesmas.

 

COSTUMES DIVERSOS

 

ALCUNHAS DAS POVOAÇÕES

Nas povoações raianas, senão em todas, nem sempre as relações de vizinhança foram as melhores. Não sei se por desigualdade de privilégios ou por diversos motivos sociais. O que é certo é que sempre houve rivalidades e disputas. Estou a lembrar-me da nossa vizinha localidade, a Zebreira, que com o Rosmaninhal até há muito pouco tempo alimentou restos dessa insociabilidade.

De tais disputas nasceram nomes grotescos e ridículos como meios de combate e ofensa. Destes nomes vou referir alguns que identificam os habitantes das localidades vizinhas.

CHAMUSCADOS, os do Rosmaninhal

ALCATRUZES, os da Zebreira

BAILARICOS, os de Medelim

LAGARTEIROS, os de Monsanto

EIBEDOS, os do Ladoeiro

VENTANEIROS, os de Salvaterra do Extremo

ATA-PALHAS, os de Segura

ALARVES, os de Idanha-a-Nova

ESTURRADOS, os de Alcafozes

GALINHEIROS, os de Penha Garcia

MONTESES, os de Soalheiras, Cegonhas e Couto das Correias

 

 

 

ALCUNHAS DOS HABITANTES

Em todo o concelho de Idanha-a-Nova raro será a pessoa que não seja conhecida por uma alcunha.

As alcunhas são hereditárias, muitas vezes para diferenciar pessoas com nomes iguais outras vezes aliadas à profissão, outras por desdém, etc.

No Rosmaninhal existem todas estas formas de tratar pessoas, daquelas que reuni umas são bem antigas talvez de várias gerações outras são bem mais recentes, mas igualmente alcunha:

 

AÇOUGUEIRO

ADELAIDINHAS

ADELINO

AGUERA

ALALUIA

ALAMÃO

ALBARDEIRO

ALCAFOZES

ALEGO

ALEIXINHO

ALENTEJANO

ALFAIATE

ALMEIDA

ALMURTÕA

ALPEDRINHA

AMENDOA

ANACORETA

ANDORINHA

ANGELO

AREL

ARMINDO

ARRANCA A PRECISA

ARREBENTA

ASCENÇÃO

AURÉLIO

AZINHEIRA

 

BÁBÁU

BABOSO

BABUGE (O CHICO)

BACOREIRO

BACORINHO

BADACHA

BADALINHA

BADALO

BADANELO

BAIA

BAIAALEGO

BALÃO

BALDÃO

BALELA

BANDULHO

BANDURRA

BAROULA

BARRELA

BARRIGAS

BARRIGUDO

BARRILEIRO

BARRILISTA

BARTOLO

BATATA

BEIÇA

BEIÇUDA

BEIÇUDO

BELÉ

BENA

BENEDITO

BENTO (JOÃO)

BENZILHÃO

BERRÃO

BEZERRO

BICHELHA

BIFE

BIGÓDA

BIGODES (O MANUEL DOS)

BILÉ

BITA

BITÉ

BOI

BOIEIRA

BOIS (O MANUEL DOS)

BOLAS

BÓLAS

BOLETA

BOMBA

BONITO

BORREGAS

BORREGUINHAS

BORRÔA

BORTOLO

BOSTA

BOTA CATURRA

BOTAS

BOUVINHA

BRANCA

BRANCO

BRASILEIRO

BRECA

BRUXA

BRUXO

BURRÃO

BURREIRO

BURRICA

BURRINA (CHICO À)

 

CABAÇÃO

CABACINHO

CABAÇO

CABEÇA GROSSA

CABEÇAS

CABIA

CABRA

CABRAL

CABREIRINHA

CACA

CAÇADOR

CAÇAPO

CACHAPARRA

CAÇOLA

CADEIREIRO

CADORNO

CAFARRO

CAGACHEIRO

CAGADEIRA

CAGADINHO

CÁGADO

CAGANETA

CAGÃO

CAGOITA

CAINADA

CAIXEIRO

CAIXOTE

CALCENILHA

CALÇONILHO

CALDEIREIRO

CALÉ

CALHABOI

CALHÃO

CALHAROUÇA

CALHOA

CALOLA

CALOTA

CALOTE

CAMBALHOTAS

CAMBARRA

CAMBORRA

CAMBULHO

CAMINHEIRA

CAMISA

CAMPANHA

CANA

CANANA

CANÁRIA

CANCHANA

CANCHANA

CÂNDIDO

CÂNDIDO

CANDOSA

CANÉ

CANECO

CANELAS

CANELO

CANEVELHA

CANHOTO

CANTARIA

CANTIGAS

CANUCHO

CÃO BORRACHO

CARA LINDA

CARAMILO

CARDENA

CARDOSA

CARECA

CARLOS DA PALMEIRA

CARNEIRO

CAROÇA

CAROÇO

CAROUCA

CAROUCHO

CARRANCA

CARRAPACHEL

CARRAPATA

CARRAPATINHO

CARRAPATO

CARREIRO

CARRONDO

CARTACHINHO

CARTACHO

CARTUXA

CASCARÃ

CASTELO BRANCO

TAPAZ

CATAPIRRA

CATARATA

CATARRO

CATATOULA

CATITA

CATURRA

CEROULA

CERVITA

CEVELA

CHAINITO

CHAIRICO

CHANAS

CHANCA

CHANECO

CHANELEIRO

CHANESCA

CHANFALHO

CHANITO

CHAPIBOCHE

CHARRA

CHARRA-PÃO

CHATO

CHÉ (CHICO)

CHÉCA

CHÉFRA

CHALIM

CHENDRA

CHEQUINHA

CHIBA

CHIBO

CHIC ÁFRANÇA

CHIC´ATÃO

CHICHA

CHICHA

CHICHI

CHICO POUZIO

CHIFRE

CHIMANA

CHINA

CHOCALHOTA(O PEDRO DA)

CHOCOLATE

CHORÃO

CHOUCHO

CHUÇA

CHUÇO

CHUPA

CHURRO

CHÚS

CIDADE

CIGANO

CINCUDO

CLARA (O ZÉ)

CLARA DO ZÉ MARIA

CLARONA

COBRA

COCHINHA

COCHO

CÔDEA

COMBOIO

CÓRNA (CHICO)

COUCHINHO

COUCHO

COUVINHA

COVEIRO

CROADA

CUBEIREIRO

CUCA

CUCHACHO

CUCO

CUECAS

CUQUINHA

CURRAL (A ISABEL DO)

 

DEZ

DIABO (A MARIA DO)

DILANO

DOMINGUEIRAS

DOMINGUENAS

DOMINGUINHOS

DONINHA

DOUTOR DE S. PEDRO

 

ELVAS

ENGULA A BATATA

ESCARTCHO

ESCUBEIRA

ESPANHOL

ESPANHOLA

ESPANTADO

ESTOPA

ESTRELA

 

FACHECA

FACHINA

FADO

FAININA

FANCHOLA

FAN-FAN

FANGALHO

FANHA

FARINHEIRA

FARRASCA

FARROSCA

FARROSCA

FASQUINHA

FEDELHO

FEIJÃO

FERREIRO

FISCAL

FÓCA

FONA

FORNEIRO

FRACO

FRANGINHAS

FRASCISQUINHA

FREIRA

FREIXADA

FREIXAL

FREIXELA

FREIXOLA

FRONTEIRA

FURRIEL

 

GACHO

GADUÇO

GAGO

GALANTE

GALANTINHO

GALFANHA

GALFANHO

GALHITA

GALHITA

GALHO

GALINHA

GALOCHA

GÁNÃO

GANCHÓ

GANCHONA

GANHA PÃO

GARANETE

GATA

GATO

GEADA

GERONDA

GIGANTE

GINJA

GIRÃO

GODINHO

GONÇALO

GOULÃO

GRALHA

GRENCHO

GRÃO

GREGÓRIO

GRENCHA

GRENCHO

GRETA

GRILO

GRUNHA

GUAN

GUARDA-RIOS

GUERRA

 

IDANHA (O ZÉ DA)

 

JANOTA

JEROLMINHO

JINJA

JOÃO DÁ BURRINA

JOLIM

JONJA

LAGARTO

LAGATÃO

LÁLÁ

LAMBARDA

LAMEIRA

LAPA

LAPEIRA

LARACHA

LATAS

LATOEIRA

LEITE (JOSÉ DO)

LEITE (MANUEL DO)

LEONORZINHA

LEOPOLDINA

JEROLMINHO

LINDA FEIA

LINDOSO

LINGUIÇA

LOBIS-HOMEM

LOBO

LOMBARDA

LONGA

JONJA

JOSÉ NABO

LOUBA

LOULO (O MENINO)

LOURINHA

LOUSA

LOUSINHA (MARIA)

LUCINDA

LÚCIO CRAVEIRO

 

MACACA

MACARRÃO

MAGALA

MAGALINHA

MALPIQUEIRA

MAMÃO

MAMONA

MANARRA

MANCA

MANDELÃO

MANELÃO

MANHOUVA

MANJERICO

MANQUETA

MANTEIGAS

MAQUENA

MARCELA

MARÉS

MARGASSONA

MARIA DO BOI

MARIA ROSA

MÁRIÇA

MARINHEIRO

MARIQUETAS

MARQUINHA

MARQUINHO

MARQUITO

MARROIO

MARTELÃO

MATA (O JOSÉ DA)

MATA PITOS

MATÁDO

MATRACA

MELINDRA

MELRINHO

MELRO

MENÁCA

MENINO JESUS

MERLO

MIDRES

MILHANO

MINGA

MINTROSO

MIQUELINO

MOÇA

MÓCA

MOÇA PERFEITA

MOCHACHO

MOÇO

MODISTA

MOLEIRO

MORCELA

MORTO

MOTA

MOUCHO

MOUCO

MOUCO MACARRÃO

MOUCO MODISTA

MODISTA

MOUQUINHO

MUCHACHO (A)

 

NABIÇA

NABO

NALGAS

NANA

NARCHA

NAVARRO

NEGRA

NICO

NINA

 

OLEDO (O ZÉ DO)

OLÍMPIO (O JOÃO)

OVOS

 

PACHACHO

PACHALIM

PACHIM

PADEIRO

PADRE ANTÓNIO

PADRE SANTO

PAIVANTE

PALÁCIA

PALALITA

PALEILA

PALHEIRAS

PALHEIRINHAS

PALITO

PALMILHO

PANDANA

PANDELEIRO

PANDERETA

PANDRICO

PANETA

PANTOMINEIRO

PANTUFO

PAPANA

PARAFUSO

PARREIRA

PARREIRINHO

PASSARINHO

PASTOR

PASTORINHO

PATA CAGADA

PATA LARGA

PATATÓ

PATINHA

PECADO

PECHACHO

PECHELHA

PECHINCHA

PEDRINHO

PEGA

PEIDA

PEIDÃO

PEIXE

PELADO (A ANTÓNIA DO)

PEMENTO

PENEREIRO

PÉPE

PEQUENINO (O JOSÉ)

PERDIDO

PEREIRA

PERNAS

PERQUITA

PESETA

PESTANA

PETANTA

PIÃO

PICANÇO

PICHA

PIENÇO

PILOTO

PIMENTO

PINGAROTA

PINGUINHAS

PINHEIRINHO

PINTADO

PINTINHO

PIPI

PIRES

PIRÓLA

PISA

PISA ALHOS

PITA

PITO

POLHO

POLICIA

POMBO

PONCHA

PÓPÓ

PORCA

PORFIRIO (O MANUEL)

PORREIRIÇO

POUPA

POUPINHA

POUZIO

POVINHO

PRAGANA

PRAQUITA

PRETO

PRINGUEIRONA

PRIOR

PROENÇA

 

QUADRAZENHO

QUEIMADA

QUILHÓ

 

RABETE

RABUJA

RACHADO

RAMALHÃO

RAMALHOA

RAMBÓIA

RANCHEIRA

RANCHONA

RANGUINHO

RANHOSO

RANITO

RAPA

RAPOZO

RIQUINA

RASCÃO

RASGANA

RATADA

RATAZANA

RATO

RATOEIRA

RAZOURO

REALÃO

REDOLHO

REGÓFA

REI COXINHO

REI DE MATOS

REICHEGOU

RÉLA

RENGO

RENQUINHO

RESPIGA

RETRATO DAS ARANHAS

REVIRA

RODAS

ROLDÃO

ROLINHO

ROLO

ROMÃO

ROMEIRA

ROMONA

RONDÃO

RONQUILHA

RÔTO

RUSSO SEREJO

RUSSA

RUSSO

RUSSO ANDRÉ

RUSSO PINA

RUSSO RASGANA

RUSSO RATOEIRA

 

SABIA

SACANINHA

SALA

SALOIA

SALSINHA

SALTA BARROCAS

SALVATERRA

SAPATEIRA

SAPATEIRINHO

SARAFANA

SARDENA

SARDINHA

SARDINHEIRA

SARGENTO BERA

SARROEIRO

SEBASTIÃOZINHO

SENÓCA

SERRANINHO

SERRANO

SERRASQUEIRA

SERVITA

SEVELA

SIDRO

SIGA

SILVANA

SNOCA

SOBREIRINHA

SOLTEIRÃO

SOMBRA

SOVELA

SUJA

SUQUETE

SURDENA

 

TACAI

TACAIO

TACHO

TAGÃO

TAGONA

TALEGO

TAQUINHO

TARENGA

TARROTE

TARZAM

TERRAMOTE

TESTA

TETAS

TÓ SEREJO

TOCO

TORTA

TOTINHA

TOULA

TRAMALEIRO

TRAPALHADAS

TRAQUINA

TRINTA

TRIPA

TRIPAS (O JOSÉ DAS)

TRONCA

TRUQUE

TURCO

 

VALENTE

VANETA

VAQUINHAS

VARIANTA

VARINA

VARLISTA

VELHINHA

VELHO

VENETA

VERGAS

VICENTE

VIEGAS

VILANO

VINAGRE

VINTENAS

VIOLA

VIRA-TE Á CACHOPA

 

XAIRICO

XALIM

XANAS

XANETA

XICHA

XIMANA

XIRIBIU

XISTRO

XIXI

 

ZAGAL

ZAROLHO

ZÉ VELHO

ZENGLEN

ZÉZANA

ZÉZINHO

ZINGA

ZOQUETE

ZUQUE TRUQUE

 

CANCIONEIRO DIVERSO

O mundo moderno aos poucos vai apagando todos aqueles costumes tradicionais que se enraízaram durante séculos na nossa cultura. A rádio, televisão, computadores, discotecas, etc. vieram substituir o adufe (pandeiro), as pandeiretas, zamburra, o acordeão, etc. que tanto animavam os bailaricos de antigamente.

As cantigas eram uma forma de expressar a alegria, a tristeza, a dor eo amor. Hoje, praticamente tudo se esqueceu, relembramos de seguida algumas dessas canções.

 

D. CARLOS

- Que fazes aqui donzela,

debaixo do arco a escutar?

- Estou aqui pela sereia,

mais pelo seu lindo cantar.

- Não estás aqui pela sereia,

nem pelo seu lindo cantar.

Estás aqui pelo D. Carlos,

que ali anda a passear!

Se assim for, meu pai

vou mandar chamar,

Ao rabo do meu cavalo

te vou mandar atar.

D. Carlos assim que soube isto,

longe da terra foi morar.

Donzela com saudades

não podia por lá estar.

Foi-se de vila em vila,

e de lugar em lugar.

Ás onze horas do dia

à porta lhe ia a chegar.

- Onde mora aqui D. Carlos,

que aqui devia morar?

- D. Carlos não está cá,

anda ali a passear.

Se a senhora tem muita pressa,

eu o vou mandar chamar.

- Eu não trago muita pressa,

também posso esperar.

Estando nesta conversa

e D. Carlos a chegar.

- Que tens tu donzela,

p´ra esta hora aqui estar?

- Foram as tuas saudades

que cá me fizeram chegar.

- Já tenho mulher e filhos,

já não te posso amar.

De duas filhas que tenho

qual delas é a mais leal.

Uma se chama Maria

outra se chama Guiomar.

- Dá-me os teus braços D. Carlos,

que neles quero acabar.

- Que dizes tu, ó mulher,

a este tão lindo amar?

-Que a arrastes pelos cabelos

e a vás deitar ao mar.

- Mas eu não lhe faço isso

não lhe quero tanto mal.

Ás quatro horas da tarde

a donzela estava a acabar.

Dela nasceu o enleio

para ela o enlear.

A invejosa da viúva

o enleio mandou cortar.

Veio um anjinho do céu:

- Viúva não faças tal!

Donzela já está no céu,

D. Carlos está a entrar.

Fazei-lhe uma cova de ouro

monumentos de cristal.

 

Não há repetição de versos. A música vai do princípio ao fim até se esgotar as quadras.

 

TRIGUEIRINHA ENGRAÇADA

Trigueirinha engraçada (bis)

Pela rua pode andar (bis)

A branca desconsolada

Em casa se deixa estar (bis)

Pela rua pode andar

Qual é o tolo que deixa (bis)

Trigueirinha engraçada (bis)

Para amar a branquidão

Cousa que não vale nada (bis)

Trigueirinha engraçada

Óh! Arcipreste dos vales (bis)

Arretira-te detrás dos montes (bis)

Nos dias que te não vejo

Meus olhos são duas fontes (bis)

Arretira-te detrás dos montes

Meu amor procura agrados (bis)

Não procures formosura (bis)

Formosura sem agrados

É viver na noite escura (bis)

Não procures formosura

Esperei-te no cais da fonte (bis)

Três golos de água bebi (bis)

Faltas-te ao prometido

Deu-me o sono, dormi (bis)

Três golos de água bebi

 

ESPANHA

Fui a Espanha, fui Espanhola,

fui a França, fui Francesa.

Cheguei a Campos Maiores,

lá me chamaram camponesa.

Eu sei, tolei, tolei, sevilhana,

assemelhantes carinhos à Americana,

assemelhantes carinhos à Americana.

Eu quero-te mais mesmo pobre,

que á tua Espanha.

Alvaiade na botica

sem dinheiro não a dão.

Muito custa a ser bonita

a quem não o é de nação.

Eu sei, tolei, tolei, sevilhana,

etc.

A oliveira se queixa,

se queixa e tem razão.

Que lhe colhem a azeitona,

e deitam a rama ao chão.

Eu sei, tolei, tolei, Sevilhana,

Etc.

Oliveira pequena,

que azeitona pode dar.

Homem pobre e sem dinheiro,

que amores pode tomar?

Eu sei, tolei, tolei, Sevilhana,

etc.

Já lá vai, já se acabou,

O tempo que te amava.

Tinha olhos e não via,

na cegueira em que andava.

Eu sei, tolei, tolei, Sevilhana,

assemelhantes carinhos á Americana,

assemelhantes carinhos á Americana.

Eu quero-te mais, mesmo pobre,

Que á tua Espanha.

(cantada na apanha da azeitona)

 

ROSMANINHAL

Ó Rosmaninhal, terra linda

Onde eu nasci.

Outra assim igual,

Tão bonita nunca vi.

O meu coração vai nesta canção,

Vai nela o amor que eu sinto por ti.

Que paz bendita este cantinho,

Terra banhada de Rosmaninho.

Aldeia querida, minha fé, meu doce lar,

tua luz na minha vida, chama eterna a brilhar.

O sol dourado teus tesouros beija.

O mundo inteiro chora de inveja.

Porque afinal, o sol é teu namorado,

Meu belo torrão natal, meu belo cantinho amado

(Repete)

 

7.4. CASAMENTO

Como todos os costumes, também o casamento já não mantém a tradição de outrora ou, pelo menos, na totalidade. Efeitos da televisão e das revistas, mas enfim são novos costumes e temos que aceitá-los.

Era costume no Rosmaninhal, na véspera do dia de casamento, levar-se a fogaça aos noivos, que normalmente era um alqueire ou meio alqueire de trigo, e mais tarde dinheiro. O noivo ou a noiva apontavam o nome de todos aqueles que lhe faziam a oferta e o valor da mesma e de seguida faziam questão de mostrar o enxoval, que estava propositadamente em exposição.

Hoje em dia esta fogaça é dada, em dinheiro, normalmente no dia do casamento num envelope que contém os nomes de quem oferece.

Era costume os Pais dos noivos oferecerem jantar aos mais chegados.

No dia do casamento o noivo, acompanhado de sua madrinha e demais convidados, vai a casa da noiva buscá-la e de seguida partem para a Igreja.

Na ida para a Igreja a noiva abre o cortejo de braço dado pelo seu pai e acompanhada por duas crianças que seguram o comprido véu e transportam as alianças para a cerimónia.

Logo atrás segue o noivo de igual modo acompanhado de sua madrinha, e para trás os convidados de ambas as partes.

Na Igreja assiste-se à cerimónia do casamento. À saída começam a tocar os sinos e os noivos são saudados com o arremesso de trigo, arroz e pétalas de flores, como que, para desejar-lhes felicidades e fartura.

O cortejo segue agora para casa da noiva onde são deitadas ao ar para quem quiser apanhar, quase sempre em grande reboliço motivado pela alegria das crianças, rebuçados e algumas moedas.61

Este costume pretende fazer transparecer fartura e estabilidade no casal que agora se une e ao mesmo tempo felicidade e alegria obsequiando deste modo aqueles que assistem à cerimónia.

Seguidamente é servida a boda, talvez o momento mais esperado por todos.

Presentemente a boda é servida por restaurantes, que como se sabe são fora do Rosmaninhal, obrigando assim os convidados a socorrerem-se de automóveis para se fazerem transportar. É também costume os noivos porem à disposição dos convidados um autocarro, que alugam para esse fim.

Quando a boda é feita à caseira, recordando assim os velhos costumes é servida num salão. A refeição consta de canja, ensopado de borrego, cabra ou ovelha e no fim arroz doce, melão ou melancia.

No final da refeição os noivos partem o bolo e com uma bandeja vão colocar-se na saída do salão. Os convidados um a um tiram um bocadinho de bolo da noiva, bebem um cálice de vinho do Porto oferecido pelo noivo e de uma bandeja tiram um cigarro e em troca oferecem dinheiro, no valor do que cada um pode ou entende dar.

À noite há baile. Mais ou menos a meio do baile os noivos retiram-se o que provoca sempre algum piropo por parte dos amigos. Amigos estes que certamente já foram a casa dos noivos pregarem alguma partida, como depositar açúcar debaixo dos lençóis ou fazer a cama à “Espanhola”.

Na noite do casamento punha-se um lençol com renda no tecto por cima da cama chamado o lençol do céu.

Para haver felicidade no novo casal, deitavam-se três moedas de

Vintém (dois centavos) no bacio ou penico da cama dos noivos, no dia do Casamento. 62

Nos baptizados é também costume deitar ao ar para serem apanhados pelas crianças, rebuçados e algumas moedas

No final do baile ia toda a gente para a porta dos noivos cantar os parabéns ao toque da guitarra, concertina 63 ou flauta 64 .

 

SERENATAS

 

As telhas do teu telhado

São de barro bem unido

Debaixo delas passeiam

Quem eu trago no sentido

 

Menina que está à janela

Com os brincos a dar a dar

É bonita, gosto dela

Tem olhos de namorar

 

Meu amor disse que vinha

Quando a lua além viesse

A lua já foi, já veio

Meu amor não aparece

 

Menina do resto chão

Não tenha a janela aberta

Olhe que o meu coração

Não tem morada certa

 

Debaixo da tua janela

Tenho meu Fachinho de lenha

Estou à espera de resposta

Que dessa boquinha venha

 

A concertina e o acordeão são instrumentos musicais muito apreciados pelos

Rosmaninhenses, pelos menos os mais velhos, que lhes faz recordar os bailaricos de antigamente. Era também o instrumento que os rapazes que iam á inspecção militar

(sortes) contratavam para dar a volta ás ruas (muito usual quando da guerra do Ultramar).

A flauta também de chamada de fraita ou gaita de beços.

 

 

 

Deitei o limão correndo

Á tua porta parou

Quando o limão te quis bem

Fará quem o deitou

 

Deitei o limão correndo

Pró meio dos olivais

Pensando que me esquecias

Cada vez me lembras mais

 

A barra da tua saia

Fui eu que a queimei

Com o morrão do meu cigarro

Quando contigo falei

 

 

PARABÉNS

 

Parabéns te venho dar

Meu raminho de salsa crua

Quando ias para a Igreja

Alumiavas toda a rua

 

Quando ias para a Igreja

Levavas olhos de chorar

Dizias para contigo

Que sorte Deus me vai dar

 

Lá em cima no altar mor

Faz tremer o coração

Onde o Senhor Vigário diz

Ponha aqui a sua mão

 

Ponha aqui a sua mão

Junte palma com palma

Junte o seu coração

Com a raiz da minha alma

 

Estava o noivo na cadeira

A noiva na cadeirinha

Disse o noivo para a noiva

Anda cá que já és minha

 

Eu venho daqui tão longe

De correr venho cansado

Venho dar os meus parabéns

Aos Senhores esposados

 

Parabéns vos venho dar

Mandados por Sto. António

Deus vos faça bem casados

No livro do matrimónio

 

Viva o noivo mais a noiva

Vivam os pais que os criaram

Vivam também os padrinhos

Que à Igreja os levaram

 

Eu venho de lá tão longe

Sem por os pés na calçada

Venho dar os parabéns

À senhora Esposada

 

Quando ias para a Igreja

Alumiavas toda a rua

Debaixo da vossa cama

Nasce o sol põe-se a lua

 

A tua sogra ________ (nome do noivo)

Um recado me veio dar

Que lhe estimes bem a filha

Que lhe custou a criar

 

Ó senhora Esposada

Diga quem por si chorou

Foi seu pai e sua mãe

Que á Igreja a levou

 

Parabéns te venho dar

Mandados por Santa Rita

Que vos viésseis a juntar

Numa hora bem bonita

 

Parabéns te venho dar

Meu raminho de poejo

Deus te dê boa sorte

Como eu para mim desejo

 

Parabéns te venho dar

Meu raminho de oliveira

Já foste a largar o traje

Que trazias de solteira

 

 

Parabéns te vem dar

Um amigo verdadeiro

Oxalá não te arrependas

Da vida de solteiro

 

Já te casaste meu amigo

Já o laço te apanhou

Deus queira que sempre digas

Se bem estava melhor estou

 

Venho aqui pela rua abaixo

Sem por o pé na calçada

Venho dar os parabéns

Á senhora Esposada

 

Senhora esposada

Ponha a mão no meu colete

Olhe para o seu Esposado

Que é um lindo ramalhete

 

Senhora Esposada

Meu raminho de poejo

Deus lhe dê tanta saúde

Como para mim desejo

 

Senhora Esposada

Linda Rosa em botão

Eras a cara mais linda

Que tinha a geração.

 

O Chico, amigo Chico

Já estás a fazer das tuas

Faz isso mais devagar

Que já se ouve cá na rua.

 

As serenatas e os parabéns pertencem à mesma espécie musical, embora as serenatas sejam dedicadas às raparigas solteiras e os parabéns aos noivos na noite do casamento.

 

GASTRONOMIA

O pão (trigo) era e ainda hoje é, um dos principais alimentos das gentes desta terra.

É confeccionado de modo artesanal e guardado durante vários dias.

Este entra na confecção de variadíssimos pratos - açordas, migas, sopas, gaspacho, etc. e serve de acompanhamento a quase tudo - carnes , peixe, queijo, enchidos, etc.

Quando se deixa cair um pedaço de pão, apanha-se e beija-se.

É também hábito destas gentes ter um pedacinho de terra onde amanham uma pequena horta de onde retiram alguns produtos: alfaces, batatas, alhos, cebolas, couves, etc. que complementam a sua alimentação.

No entanto e além da carne de borrego, ovelha, cabra e galinhas a carne de porco era a mais utilizada. Raro era a família que não criava na furda, que normalmente se situava nos arredores da povoação, o seu porquinho.

Os presuntos, toucinho e enchidos faziam parte da maioria das suas refeições.

O peixe do rio, a sardinha e o carapau eram também utilizados na alimentação com alguma frequência.

A partir de Fevereiro apanham-se nos campos de pousio há alguns anos, criadilhas e tortulhos, muito saborosos e que dão um óptimo petisco.

Por ser de grande importância na alimentação e fazer parte da sua cultura, quer como fonte de fartura quer como fonte de convívio e união familiar, vamos descrever a matança (matação) do porco.

 

MATANÇA DO PORCO

Como já se referenciou a matança do porco era uma festa familiar e reforçava a despensa para o próximo ano.

Depois de trazido o porco da furda que como já referimos ficava normalmente fora da povoação, para junto de casa. O porco era agarrado com garra por quatro ou cinco homens que o deitavam em cima da banca de madeira. Depois de bem seguro, o matador ata-lhe o focinho, não vá ele morder e espeta-lhe a faca.

Normalmente uma mulher com um alguidar de barro apanha o sangue onde mistura um pouco de sal e vai mexendo-o com a mão para não coagular.

Seguidamente a mulher coze-lhe o golpe feito pela faca do matador e começa-se a chamuscar o porco com chamuscas de giestas secas e mais recentemente com maçaricos a gás muito mais eficientes.

Depois de bem chamuscado, esfrega-se e lava-se bem lavado e dependura-se com a ajuda de uma corda e do chambaril na parede exterior na casa ou no sobrado do sótão para se poder abrir e retirar as tripas.

Nesta operação é preciso muito cuidado para que se não rebente o fel, que iria causar mau sabor nas carnes.

Depois desta operação as mulheres partem para o ribeiro mais próximo para lavarem as tripas com água, sal e laranjas, que posteriormente vão servir para fazer os chouriços, farinheiras, morcelas, etc.

Os homens pesam o porco com auxílio de uma “Romana” e seguidamente continuam a desmanchar e separar as carnes que as mulheres irão mais tarde utilizar para os diferentes tipos de enchido ou pratos que irão ser confeccionados.

Os toucinhos e presuntos vão para a salgadeira onde serão conservados durante o ano.

Se for lua nova não se mexe em carnes. É costume os homens retirarem o “queixo” do porco para ser confeccionado como petisco. Este é primeiramente levado ao lume para que a carne possa ser retirada mais facilmente dos ossos e depois de cortado em pedaços pequenos é refogada com molho abundante e bem picante.

No almoço, participam todos aqueles que ajudaram na matança e familiares. É constituído por arroz de febras, batatas cozidas com fígado e lamburdo.

Ao jantar são servidas migas com couves e ossos, massa de farinheira e prova de chouriço.

É ainda costume levar o jantar aos familiares daqueles que ajudaram na matança ou a algum amigo que por ventura não participou nas refeições.

Enchidos:

Os chouriços e os painhos são confeccionados com as melhores carnes do porco, embora no Rosmaninhal se misture alguma gordura para que as carnes não fiquem tão secas, temperadas de um dia para o outro, dentro de maceiras, com alho (abundante), água, sal e colorau. Os chouriços são enchidos em tripa de vaca e os painhos na tripa do próprio porco.

As tripas são enchidas com a ajuda de enchideiras e picadas para que o ar saia - à excepção das farinheiras que não se podem picar - e atadas nas extremidades com fio de algodão a que se dá o nome de tramas.

A bexiga é confeccionada com ossos bem cortados, pedaços do rabo, orelha, língua e toucinho da barriga, sendo temperada como os chouriços.

Os bufeiros são enchidos em tripa de vaca e são confeccionados com bofe, bucho, nervos, sal, colorau, água e alho.

As morcelas são enchidas em tripa do próprio porco e logo de seguidas escaldadas em água a ferver. São confeccionadas com carnes ensanguentadas, sangue, água, sal, alho, vinho e laranja.

As farinheiras (farinheiras) são enchidas em tripa de vaca e são confeccionadas com gorduras cozinhadas e cruas, farinha de trigo, sal, água, louro e pimento.

 

EMENTAS TRADICIONAIS

Além do jantar da matança, prova de chouriço, massa de farinheira, lamburdo, todos os pratos servidos a seguir à matança do porco e todos eles confeccionados com carnes do porco acabado de matar são ainda tradicionais os seguinte pratos : Ensopado de borrego, Gaspacho, Migas de feijão, Miga de alho, Migas da Cubeira, etc.

 

LAMBURDO

(seis pessoas)

1 Lt. de sangue de porco (liquido)

50 Gm. de banha em rama (unto por derreter)

1 Cebola média

6 dentes de alho

1 Folha de louro

1 Colher de chá de colorau

2 Colheres de café de cominhos em pó

500 Gm. de pão caseiro (de véspera)

Recolhe-se o sangue num recipiente, onde previamente se deitou um pouco de vinagre e de água e mexe-se até arrefecer.

A quantidade de sangue para esta sopa não é rigorosa, devendo ser o suficiente para a sopa ficar bem escura.

Corta-se banha em bocadinhos e levasse a derreter em lume brando numa frigideira.

Quando a banha começar a fundir, junta-se a cebola picada e deixa-se alourar. Entretanto já se pôs ao lume uma panela com três litros de água.

Quando esta água levantar fervura, junta-se o conteúdo da frigideira, os alhos picados com sal e deixa-se ferver tudo um bocadinho.

Em seguida reduz-se o calor e adiciona-se o sangue passado por um passador de rede e mexe-se energicamente o caldo a fim de impedir que o sangue talhe.

O sangue deverá apenas cozer um ou dois minutos, em fervura suave e mexendo-se sempre.

Mergulha-se então uma fatia de pão no caldo e prova-se a sopa. Se estiver muito clara, junta-se um pouco mais de sangue.

Também deve saber bem a cominhos.

Tem-se o pão cortado em fatias finas numa terrina, rega-se com o líquido e abafa-se durante alguns minutos.

Come-se bem quente.

 

JANTAR DA MATANÇA

(seis a oito pessoas)

Ossos da cabeça e do espinhaço do porco

1 Cebola grande

300 Gms. de toucinho baixo (barrigada)

200 Gms. de couratos

8 Dentes de alho picados

1 chouriço

Couves tronchas (portuguesa)

600 a 800 Gms. Pão trigo (caseiro)

1 ramo de hortelã

Sal grosso

Põe-se uma panela grande ao lume com água e os ossos polvilhados com sal e, quando a água levantar fervura, junta-se-lhe uma cebola grande, o toucinho e os couratos, os dentes de alho pisados com sal e o chouriço (do ano anterior).

Depois de ferver um pouco, juntam-se as couves inteiras a que apenas se retiram as folhas de fora.

Deixa-se cozer tudo muito bem.

Entretanto, têm-se o pão cortado dentro de uma terrina, na qual também se introduziu o ramo de hortelã.

Rega-se com o caldo e espalha-se por cima alguns farrapinhos de couves. Deixa-se embeber e serve-se a sopa.

Dispõem-se os ossos no centro de uma travessa grande e à volta colocam-se as couves, o toucinho, os couratos e o chouriço cortado às rodelas.

Serve-se como segundo prato.

Para este prato, que se come no próprio dia da matança, escolhem-se ossos da cabeça e alguns ossos de onde se retirou a carne para fazer chouriços.

 

SOPA DE FEIJÃO

0,5 lt. De feijão vermelho

2 cebolas médias

1 folha de louro

1 dl. Azeite

1 molho de poejos

1 colher de chá de colorau

água

250 gm. De pão duro caseiro

sal

Depois de demolhado, coze-se o feijão em água temperada com sal. À parte leva-se ao lume, num tacho, o azeite, com as cebolas cortadas ás rodelas e a folha do louro. Deixa-se dourar levemente e adiciona-se a água da cozedura com metade dos feijões (a outra metade desfaz-se), os poejos e o colorau. Ferve um bocado, para apurar. Deita-se bem quente numa terrina, sobre o pão cortado às fatias finas.

Também se cozia junto dos feijões toucinho ou outra peça de enchido

(chouriço, morcela ou farinheira), para dar sabor e servir de conduto.

 

GASPACHO

3 dentes de alho

0,5 dl. De azeite

0,5 dl. De vinagre

1,5 lt. De água

poejos secos

alface, tomate, pepino

225 gm. de pão duro caseiro

sal

Pisam-se os alhos e o sal num almofariz e deitam-se numa tigela.

Mistura-se o vinagre, adiciona-se a água bem fresca, o pão partido com a mão, o tomate, alface ou pepino cortado aos bocados e os poejos. Rega-se com azeite, envolve-se tudo rectificando os temperos e serve-se fresco.

 

AS BICAS

As bicas eram oferecidas por pessoas que faziam promessas, normalmente na Capela de S. Roque e eram pequenos pães parecidos com os actuais papo-secos só que tinham um bico de cada lado e um gostinho caseiro de pão bem cozido.

Quando diziam na povoação que estavam a dar bicas lá ia a miudagem toda, em correria, a caminho da capela.

 

MIGA DA CUBEIRA (Migas tostadas)

(para seis pessoas)

1 Kg. de pão caseiro assente (seco)

5 dentes de alho

2 Dl. azeite

5 a 8 ovos

Sal

De véspera corta-se o pão em lascas finíssimas.

Uma hora antes de servir, deita-se o azeite e os alhos num tacho com duas asas e deixa-se fritar.

Assim que os alhos estiverem louros, retiram-se. Introduz-se o pão e começa a bater-se e a virar-se o pão de modo a que o azeite seja por este absorvido homogeneamente.

Se o pão for de boa qualidade, em dada altura esfarela-se de modo a parecer arroz. Diz-se que está bem frito.

Chegando a este ponto, borrifa-se a miga com meio copo de água temperada com sal (salpicando com a mão) e continua a agitar-se (banquearse) a miga não a deixando nunca empastar.

Batem-se os ovos à parte (quanto mais seco for o pão mais ovos leva) e juntam-se à miga, sempre sobre o lume e sempre a mexer de modo a que a miga fique solta sem nunca fazer bola.

Esta miga serve de acompanhamento a peixe frito, a perdizes assadas, febras de porco na brasa, lombo de porco, chouriço na brasa, cabrito assado na brasa e depois temperado com azeite e vinagre, etc.

No Rosmaninhal e em toda a zona raiana come-se principalmente com carne de porco assada e é acompanhada com café quente.

 

JOGOS E BRINQUEDOS

A maior parte dos jogos que ainda hoje ocupam o tempo dos mais novos vem já de há muito tempo. Estes jogos que vou descrever não são exclusivos do Rosmaninhal mas é um facto de que todos nós jogámos um ou outro dos jogos que irei descrever.

A maior parte destes jogos são apenas divertimento dos mais novos, são eles os verdadeiros protagonistas destas brincadeiras bem mais sadias que os entretenimentos de hoje.

Os jogos dos mais velhos, normalmente jogos de salão, são também comuns a outras localidades, mas muitas vezes tem nomes diferentes.

Como é óbvio a maior parte destes jogos praticavam-se ao ar livre e portanto a partir da Primavera. Eram praticados principalmente no recreio da escola, no largo da Igreja, etc.65

Nos degraus dos Cruzeiros e do Pelourinho aparecem pequenas concavidades, que segundo alguns autores serviam para jogar.

 

Anel

Cabra-Cega

Semana

Ringue

Escondidas

Lenço

Barra-do-Lenço

Toca e foge

Berlinde

Peão

Moucho

Corcha

Pau

Salto

Batalha

Talego

Barqueiro

Arraioula

Espincho

Gato e Rato

Tango

Bisca

Sueca

Burro em pé

Burro deitado

Galo

Dominó

 

Os brinquedos eram totalmente construídos pela rapaziada que acrescentava sempre um pouco da sua imaginação e criatividade aos mais diversos materiais para deles tirar prazer e entretém.

 

Argola

Carros de cana c/rodas de cortiça

Tratineta

Arcos e flechas c/varetas de guarda-chuva

Fisga

Casinhas

Bonecas

 

Normal era durante as brincadeiras haver zangas ou desafios para ver quem era o mais forte. Para arranjar motivo para começar a zaragata faziam-se dois riscos no chão e esperava-se que um apagasse com o pé o risco do adversário – este era o sinal de desafio e dava-se inicio à luta. Outra maneira era pôr cuspo (saliva) na testa do adversário com o dedo.

Era também hábito de quando por teimosia ou por se desconhecer um caminho ou direcção a escolher, pôr-se saliva na mão e bater-se com a cota da outra mão na saliva. Para onde a saliva saltasse se escolhia o caminho ou a direcção a tomar.

Á saída da Escola muitas vezes ouvia-se o grito “Batalha, Batalha –

Devesa contra o S. Pedro!” ou “Batalha, Batalha – S. Pedro contra à Vila!”.

Era o sinal de desafio para uma autêntica guerra de pedrada de bairro contra bairro. E ás vezes ou quase sempre dava mau resultado, algumas cabeças partidas e outras mazelas.

 

 

DIALECTOLOGIA

 

VOCÁBULOS: SIGNIFICADO LOCAL:

Palhêro Local onde se guarda a palha, o feno, os utensílios agrícolas e os animais

Polêro Galinheiro ou mais especificamente o local onde elas pernoitam dentro dele

Tchambaril Artefacto em madeira que serve para dependurar o porco depois de morto para ser arranjado

Marrano suíno, porco

Vianda Refeição fervida para os porcos (farelo e restos de comida)

Caldo sopa

Pão Pão trigo, ceara de trigo

Poia Pão grande com que se pagava á forneira

Meda Conjunto de molhos de cereal acabado de ceifar

Jêra Porção de terra lavrada num dia por uma “junta”

Junta Par de vacas aparelhadas á canga

Canga Artefacto de madeira que servia para unir os animais para servirem de tracção

Almude Medida de volume (corrente) de origem árabe, cerca de 28 litros.

Briol Vinho, bêbado, borracho

Arrechonado Apertado no vestuário pela obesidade

Espintcho Objecto fino e comprido de ferro, afiado numa das extremidades e que servia para espetar

(normalmente utilizado na cozinha)

Cortiço Colmeia rudimentar feita de cortiça

Cesta Pequeno recipiente de verga com asa em arco e sem tampa

Cesto Recipiente de verga de maiores dimensões, quadrangular com duas asas pequenas e sem tampa

Cabaz Recipiente de verga paralelepípedo, com asa, tampo e fecho

Môtcho Banco feito de uma única peça de madeira de azinho

(troco com arrebentos que servem no banco como patas, normalmente três)

Trepeço Banco de placas de cortiça

Têsto Tampa dos recipientes de cozinha

Pilhêra Local do lar, atrás do lume para onde se costuma deitar as cinzas

Lar Local da cozinha onde se acende o lume (onde se preparam os alimentos, etc.)

Tanazes Objecto de ferro (em tesoura) que serve para apanhar e arrumar o lume ou pegar em objectos muito quentes

Tição Pedaço de lenha que não chega a arder completamente

Apitchar Acender

Morrão Pedaço de torcida já queimada, cinza de cigarro

Mourão Prateleira ou balcão de xisto ou granito sobre a lareira

Barranhão Tampa de barro da talha da água. Fatias Pão frito com ovo e açúcar ou mel, fatias douradas

Estrugir Fritar

Temporão Precoce

Serôdio Tardio

Espantalho Boneco de palha ou matos e farrapos que se coloca nas hortas para afugentar os animais em especial os pássaros

Cravela Ventoinha rudimentar que reproduz barulho para afugentar os pássaros

Enxotar espantar, afastar

Ptchêgo Pêssego

Marguêda Romã

Botelha Abóbora

Correia Cinto

Nagalho Fio, cordel de palha

Cangalho Objecto que já não serve

Angarelas Aparelho de madeira ou ferro que serve para transportar cantaros nos animais normalmente dois de cada lado

Cantaro Recipiente de lata para transportar água

Gadanha Instrumento com lâmina de grande dimensão para ceifar (agadanhar) cereais, fenos, etc.

Podoa Instrumento cortante, curvo e forte para cortar arbustos ou árvores pequenas

Podão Semelhante á podoa mas de cabo comprido e serve para cortar silvados

Malha Tareia, Sova, castigo corporal, Surra

Mordela Mordedura

Barrumas Verrugas

Encarrapato Nu, encoiro, despido, em pelote

Alvorada Conjunto de foguetes que se deitam de madrugada

em dia de festa

Mortêro Foguete que provoca um som forte e isolado

Latada Fogo de artifício, ramada

Trambolhão Queda, tombo, cambalhota

Barroco Vala grande

Tchaile Xaile

Comédias Pequeno espectáculo idêntico ao circo, comediantes, saltimbancos

Roçar Esfregar

Conduto Alimento que acompanha o pão: queijo, chouriço, toucinho, azeitonas, etc.

Jornal Preço de um dia de trabalho

Peste faísca proveniente de trovoada, objecto cortante de pedra pré-histórico

Enderêta Curandeiro ortopedista

Lostra Bofetada, chapada, lâmparina, tabefe

Barriguega Comer muito, barriga cheia

Zarêlho Desatrado

Agátcha-te Baixa-te

Impína-te Levanta-te

Adregas Por acaso

Vintém picha, pila, cató.

Alfores Alforges

Apregoar Andar de rua em rua, publicitando em voz alta.

 

OUTRAS EXPRESSÕES

Anda de barriga Está grávida

Andar a nove Andar apressado

Está a atá-las Está a morrer

Deu-lhe um ataque Trombose

Está quebrado Tem uma hérnia

Anda o mal com ele Anda doente

Ficou tudo em águas de bacalhau Ficou tudo como antes

Está tudo pela hora da morte! Está tudo muito caro

Fazer pouco de... Desdenhar de...

Está a olhar para anteontem Está distraído

Meteu o rabo entre as pernas e foi-se embora. Abalou com medo

Trás água no bico. Trás segundas intenções

Anda á coca. Procura descobrir algo

è um cabeça de vento Não é muito inteligente

Parecia que não quebrava um prato e ... A pessoa em causa não era tão simples como parecia

Ralou-me o bicho do ouvido. Aborreceu-me muito

Fez o diabo a quatro. Fez muitas tropecias

Impigir gato por lebre. Tentar passar algo mau por bom

Voltou a casaca. Arrependeu-se

Julga que me faz o ninho trás da orelha. Julga que me engana

Tás´me a meter Lisboa

pros olhos! Ó quê? Pensas que me enganas

Ver Braga pr´um canudo. Passar um mau bocado

Fazer ouvidos de mercador Não ligar ao que lhe estão a dizer

Fazer de conta. Fingir

Mentes com quantos dentes tens na boca.

Nem ata nem desata.

Pão, Pão, queijo, queijo.

Não tem pés nem cabeça.

Parece que tem o diabo no corpo

Anda de cavalo p´ra burro.

Anda com o carro á frente dos bois.

Matou dois coelhos de uma cajadada.

Ensinar o padre-nosso ao cura.

Nem chuz, nem buz!

Não tem onde cair morto.

Há mais Marias na terra.

Muita parra, pouca uva.

Trabalhar para o boneco.

Foi para o maneta.

Cresce e aparece.

Cala o bico.

Tenho as mãos engadanhadas.

Está tudo engatado.

Ó pernas para que te quero!

É levado da breca.

Estou enfadado.

Para velhaco, velhaco e meio.

Ou é fome ou ruindade do dono.

Pagou as favas.

É canja.

Deu-lhe a mosca.

Picou-lhe a mosca.

É um odre.

Tonto

Tontada

Taralhouca

Pantamineiro

Doutor da mola ruça

Matar o bitcho.

É mesmo um paspalhão.

É mesmo um arpalhão

É mesmo um mal-asado

Cásca-lhe bem

Azedo como o rabo do gato

Caiu que nem um tordo.

Molhado que nem um pito.

Feio que nem um bode.

Torto que nem um arrocho.

Mau que nem cobra.

Trabalha que nem um Mouro.

Está bêbado que nem um carro.

Magro como um cão.

Mouco que nem uma porta.

Caiu redondo que nem um tamanco

Vale mais um na mão que dois a voar.

Chora que nem uma criança.

Se queres um amigo dá-lhe porrada.

Em tempo de guerra não se limpam armas.

Quem vai à guerra, dá e leva.

Quem vai para o mar avia-se em terra.

Quem casa, quer casinha.

Muito riso pouco siso.

Cada cabeça sua sentença.

A galinha do vizinho é melhor que a minha.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta.

Gato escaldado de água fria tem medo.

Quem muito dorme pouco aprende.

-O soluço aparece quando se prega uma mentira ou se rouba alguma coisa.

-O soluço desaparece bebendo sete golos de água seguidos ou pregando-se um susto.

-A água vê-se se é boa ou má deitando-se nela saliva, se a saliva se espalha é boa.

-Quando as vizinhas se zangavam ou ralhavam e uma já estava farta ou não queria retribuir, punha um penico na janela para que esta ralha-se com ele.

-Se alguém abre um guarda chuva dentro de casa, morre gente da família.

-Se de um casal nascerem sete rapazes, o último será lobisomem – se forem sete raparigas, a última será bruxa.

Tens fome? Vai á rua e pápa um home (Homem).

Tens sede? Mija p´ra mão e bebe.

Tens Frio? Embrulha-te na capa do teu tio.

-Para amedrontar as crianças: Vem aí o côca; vem aí o papão; vem aí o

 Homem do saco.

Quem dá e tira, nasce-lhe uma caramona na barriga.

-Santo António disse que não desejava voltar a ser menino pela sede que as crianças passam e que ele também passou.

-Se as crianças riem quando dormem, estão a falar com os anjos.

Comer muito queijo tira a memória.

-Para que os dentes nasçam bem, atiram-se, ao arrancá-los, para a cinza da

pilheira e diz-se: - Pilheirinha, pilheirão, toma lá este dente podre dá cá um são.

-Rapaz que faça afirmação de que os demais duvidam, deita um pouco de cuspo na palma da mão, bem aberta e diz: - Cruz de pau, cruz de ferro, se menti eu vá para o inferno. E bate com a outra mão aberta, no sentido vertical, na saliva. Se esta salta, o que ele estava a dizer era verdade; se não saltar, estava a mentir.

O uivar dos cães e o canto da coruja são sinais de morte próxima.

A coruja bebe o azeite das lâmpadas das igrejas.

-Não se deve matar as andorinhas, porquê são de Nossa Senhora ou judias.

-Quem come romãs no dia dos Reis (6 de Janeiro) tem dinheiro todo o ano.

Quando troveja está nosso Senhor a ralhar.

Os remoinhos são obra do demónio (Diabólica).

-As cobras vão ter a cama com as mães dos recém nascidos e metem o rabo na boca dos pequenos enquanto suga o leite das mães.

-Os lagartos são amigos dos homens enquanto que as cobras são amigas das mulheres.

-O lagarto avisa a proximidade de perigo quando se aproxima uma cobra.

Quando chove e faz sol está Nossa Senhora a lavar o lençol.

-Quando se tem a orelha direita quente estão a dizer bem de nós quando se tem a esquerda estão a dizer mal.

Urina nas feridas, cura-as.

Urina nas frieiras, cura-as.

Seis meses de Inverno e seis meses de inferno.

De Espanha nem bom vento nem bom casamento.

Vento do Suão depois do meio dia não limpa o pão.

-A vinte de Janeiro têm os dias uma hora por inteiro, mas quem bem souber contar, hora e meia lhe há-de achar.

-Em Janeiro sobe ao Outeiro: Se vires verdejar põe-te a chorar, se vires torrejar põe-te a dançar (a cantar).

Fevereiro afoga a mãe no ribeiro.

Março, Marçagão, de manhã Inverno, de tarde Verão.

Abril, águas mil.

Em Abril sai a velha do covil.

Canículas – Os antigos equiparavam os primeiros dias de Agosto aos diferentes meses do ano. Para o efeito retiravam o primeiro dia dizendo “o primeiro é para ele” e comparando os restantes, sendo portanto o dia 2 equivalente a Janeiro e o 13 equivalente a Dezembro.

Observando as condições atmosféricas destes dias, previam o tempo ao longo do ano.

 

CHAMAR OS ANIMAIS

Os animais fazem parte integrante da vida humana, alguns fazem parte da sua dieta alimentar, outros defendem os seus bens, outros prestam lhe grande ajuda nos seus trabalhos diários, etc.

No seu manuseamento o homem precisou de arranjar maneiras de os chamar ou advertir. Vamos pois enumerar algumas dessas formas.

Forma de chamar:

 

Galinhas ........pio, pio.

Gato ..............bich, bich. ou bitchanho, bitchanho..

Cão .............. botcha, botcha.

Porco ............ fqué, fqué.

Forma de afastar:

Galinhas.........xô!

Gato ..............sape!

Cão ................marche!

Porco .............cotch!

Fazer andar os burros ............................... Provoca-se um ruído com a língua

idêntico ao cantar das rãs ou diz-se: árre burro!

Fazer parar os animais de tiro .................. óh! (prolongado)

Fazer parar os burros ................................ xó!

 

BRUXARIA

Quando se desconfia que alguém está embruxado, tem de se roubar uma peça de roupa à pessoa que se pensa que praticou a bruxaria e mete-se num caldeiro com água a ferver. Seguidamente pica-se a peça com garfos. As picadelas serão sentidas pela bruxa que não suportando as dores, se apresentará a pedir perdão e a desfazer o feitiço.

É usual recorrer-se a mulheres para saber se tem acedente e tirá-lo.

Deita-se gotas de azeite num prato com água e com a mão gesticula-se uma cruz, se o azeite se espalhar, então tem-se acedente. A mulher que tem esse dom, faz umas rezas e tira-o.

Normalmente são pessoas que têm inveja ou gostam de fazer mal que dão o acedente e a maior parte das vítimas são crianças.

Também se recorre a certas mulheres para rezar o torcido (dores musculares, normalmente no pescoço). A mulher ao mesmo tempo que faz as rezas vai dando nós num fio. No final põe o fio ao pescoço do doente e espera-se que passe a dor!

As mulheres que têm estes dons normalmente são alcunhadas de bruxas.

Diabólica – Quando acontecia algo sem explicação ou com características de maldade dizia-se que era obra do Diabo ou a Diabólica.

Dizia-se também que ás vezes apareciam lagartos espetados nos ramos de arbustos sem qualquer tipo de explicação e que era de facto a Diabólica que fazia isso.

Quando faz muito vento e aparecem os remoinhos de vento diz-se que são “Nebrinos” ou que é a “Diabólica” que anda à solta.

As descargas eléctricas provocadas pelas trovoadas, no Rosmaninhal são chamadas de Faíscas, Coriscos e Raios.

A Faísca cai nas árvores e faz um risco de cima para baixo tirando-lhe a casca.

Corisco e Raio se a rasgar ou a desfizer em cavacas.

Como já anteriormente fizemos referência, para as pessoas mais velhas

As Faíscas, Coriscos ou Raios eram pedras incandescentes de diversos tamanhos e feitios que caíam com as trovoadas e faziam tamanha destruição.

Era pois esta a explicação que davam para o aparecimento de tantos instrumentos de pedra polida pré-históricos que apareciam pelo campo.

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Rosmaninhal, lembranças de um mundo cheio...

 

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BIBLIOGRAFIA

 

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ANDRADE,  MÁRIO MARQUES DE – Subsídios para a Monografia de Segura, 1949

ARQUIVO DISTRITAL – CASTELO BRANCO

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO

ARQUIVO DA PARÓQUIA DO ROSMANINHAL

BIBLIOTECA NACIONAL – LISBOA

CARDOSO, J. RIBEIRO – Monografia de Malpica do Tejo

CENTRO CULTURAL RAIANO  - ARQUIVO

CHAMBINO, MÁRIO L. – ESTAÇÃO ARQUEOLÓGICA DA FONTE DE SANTIAGO

CHAMBINO, MÁRIO L. – S. João Baptista  - Rosmaninhal (1999)

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HENRIQUES, FRANCISCO – A Festa do Espirito Santo no Ladoeiro e no Sul da Beira Baixa, 1997

HENRIQUES, FRANCISCO – CANINAS, JOÃO CARLOS – CHAMBINO, MÁRIO L. – Carta Arqueológica do Tejo Internacional –1993

HENRIQUES, FRANCISCO – CANINAS, JOÃO CARLOS – CHAMBINO, MÁRIO L. – Rochas com covinhas na região do Alto Tejo Português, trabalhos de Antropologia e Etnologia – (1995)

GIACOMETTI, MITCHEL E GRAÇA, FERNANDO LOPES – Música Regional Portuguesa, CD-SP 4200, vol. 3 Beiras, Strauss-Música e Video, SA.

INSTITUTO DA CONSERVAÇÃO DA NATUREZA -  Biótipo Corine do Tejo Internacional, 1995

JORGE ALARCÃO – Portugal Romano

MESQUITA, JORGE EDUARDO P. B. LOBO DE – Festa e Estratificação Social na Campina, 1984

NEVES, HELENA – “Jornal Expresso”, 11/06/1999.

MONTEIRO, PAULO ROCHA – Guia de Percursos, Tejo Internacional

 

 

 

 

 

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